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Cismas do paraíso

Publicado em: 2011-04-25 08:30:03

Imputa-se à donzela

a autoria da tentação,

mas o que ainda hoje

se testemunha,

é outra versão:

sendo o macho

quem, à fêmea, faz sedução.

Um brinco, um mimo,

ofertas, promessas e compensações:

nunca foi ofício de moças

já de por si dotadas de outras qualificações.

Que se saiba,

isso de flores, doces ou romã;

sempre precedeu másculas intenções.

Mais se afia a dúvida

quando se considera que em sua feitura,

já superara o Criador da encomenda o afã,

permitindo-Se, então, ao capricho

e maior zelo na delicada postura.

Também se deduz

ser-lhe de maior juventude,

já que só veio à luz

por própria solicitação, em sua plenitude.

(quiçá, em fase ‘inda mais provecta,

pois conta-se de certa ave xereta

circundando os paradisíacos céus,

grasnando insistente: “Eva e Adão! Eva e Adão!”

Sumindo-se, deixava incomodando

um eco permanente: “éviadão... éviadão...”)

Penalizado, dele Deus deu-lhe a fêmea:

sendo ela, dizem, o primeiro gênero definido

(e o último de Si nascido).

Finda a onanista androginia,

teve então uma companheira para o dia a dia...

Mas de que serventia

tanta beleza, nudez e ousadia?

Seria Adão um parvo absoluto?

Um animal sem qualquer imaginação

para estar ali, nu em meio ao mato,

apenas admirando Eva em completa solidão,

sem que, do fato,

lhe ocorresse a menor sugestão?

Resgatando as machas origens

do passivo papel que lhe dão na história,

buscamos em anais de mais remoto registro,

e salvamos do primeiro sedutor a memória,

revelando o discurso entreouvido

em paradisíaco matagal,

nas vésperas do dia sinistro

da tal descoberta do bem e do mal...

(que, por sinal, em bem entender

foi a primeira humana vitória

e de toda a espécie, sem dúvida,

a maior glória.

Pois se entre Adão e Eva

não se desse o enlace,

o que hoje há, nunca existiria...

- nem nada além do eterno e infernal

paraíso em que tudo, ainda, se manteria -):

Pois que Eva, alheia,

suspira mirando horizontes de mesmice...

E Adão, em sibilino

argumento imiscuísse:

“ - Pois se

é

no bagaço

que está o traço

saudável da fruta,

- meu bem –

por que não experimentar

o doce macio

que a fruta madura tem?”

(Eva não evita uma interjeição qualquer,

circundante)

Mas Adão,

sinuoso: “- Nada daquele ácido

sabor urgente

que queima

a língua da gente,

fazendo arder

delicadas papilas

e até eriçando mamilos.

Mas num frio corte

rápido e afoito

como a morte.

(Eva talvez intrigada,

talvez nada,

volta-se e entre ele vê:

a serpente)

Adão, ereto

e submisso,

sugere subreptícias: - Melhor um saborear

lento...

Escorrer de lambida

de quem sabe experimentar:

bocado a bocado.

(Eva um pouco em dúvida,

porém de lábios decididos)

Adão incontido,

uiva e rasteja: “- Beijo de vida íntima

e intensa,

como beberica

o pássaro que,

gota

a gota,

bebe o mel da flor...

Eva, de pudicícia vencida,

enfim desabrocha!

E Adão, em prazer,

suspira: "- Antes que o fruto madure,

despenque,

apodreça...

... E fique para semente."

Assim,

eras antes de Newton,

entre fôlegos e gemidos

se confirmou a gravidade da maçã.

E nestes gozosos inícios,

se fez a história

do original pecado,

interpondo-se a razão

entre as naturais atrações

das massas de Eva e

as inversas proporções

de seu companheiro,

aquele primeiro: Adão.

Por Raul Longo


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