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Norma culta, purismo e estrangeirismos

Publicado em: 2016-12-21 17:26:24

 

 

 

 

 

 

Como vimos e tem se propalado, o mau uso da língua afeta as inúmeras situações sociais, mas deve-se considerar que na verdade as situações sociais é que determinam os usos linguísticos. Os falantes se constituem como tal, usuários de uma determinada variedade linguística, nas interações verbais de que participam - já mostrava Bakhtin. Se uma criança nasce num meio letrado, a gramática da língua que ela irá internalizar certamente será aquela que mais se aproxima dos padrões de prestígio social.

 

Em nossa sociedade temos, de um lado, acumulação de poder material e simbólico; de outro, uma classe desmobilizada e sujeita aos instrumentos de imposição e dominação cultural, portanto linguística. Assim, “por maior que seja a parcela de funcionamento da língua infensa à variação, existe, tanto no plano da pronúncia como no do léxico e mesmo da gramática, todo um conjunto de diferenças significativamente associado a diferenças sociais”, observou Bourdieu (1996).

 

Como a língua não é um sistema pronto, acabado, mas está sempre sendo recriada, há forças permanentemente em movimento: forças internas agindo sobre ela (fatores gramaticais) e externas que nela atuam (os fatores sociais, como o contato com outras línguas, por exemplo), abrigando o surgimento de inovações a todo o momento. Essas inovações convivem por um tempo com as formas vigentes, enraizando-se depois e podendo elas próprias ser ultrapassadas com o correr dos anos.

 

Purismo significa desconhecer tais mudanças e aceitar apenas uma língua pura, ornamental e escoimada de “erros”. Purista, portanto, é aquele que não se deixa impressionar “pelo caráter social de um discurso, não aceita as variantes combinatórias da norma objetiva, recusa dobrar-se à pressão estatística do uso”, diz Alain Rey (in Bagno. Norma Linguística, 2001). Parece, assim, que o purista ignora ou faz questão de ignorar todo o conhecimento científico da língua, recusando a realidade do uso. Um exemplo disso seria a insistência no ensino de certas formas anacrônicas, algumas jamais utilizadas no Brasil, como “anos oitentas, noventas”, etc.

 

Uma das consequências de uma visão purista da língua são os ataques aos estrangeirismos que aterrizaram no Brasil, especialmente depois que a informática aqui se instalou com força, trazendo consigo não só a tecnologia americana mas a língua inglesa, intocada em termos como hardware, software, backup, zip, hacker, e-mail, link, e adaptada em outros como deletar, printar e atachar.

 

A crítica ecoa alarmista só porque as pessoas não se dão conta do fenômeno da variabilidade linguística. O uso de palavras provenientes de outras línguas é - repetindo - uma questão de aceitabilidade, de disposição às mudanças, na compreensão de que a variação está inscrita na língua, é inerente a ela. A mudança pode ser lenta, mas é inexorável.

 

E não podemos deixar de lembrar que a importação estrangeira é uma das fontes de formação lexical. A língua de aquisição é que varia, dependendo da época. Nos séculos 18 e 19, por exemplo, o francês era predominante. Agora é o inglês.  Quem é preconceituoso contra os empréstimos linguísticos imagina que atualmente eles são mais abundantes ou poderosos do que no passado, a sugerir a decadência da língua, o que não é verdade, conforme a ciência linguística constata.

 

Essa noção de declínio, aliás, não é peculiar à língua portuguesa. Também em outros países a questão de uma norma aparentemente imutável e isenta de estrangeirismos está muito ligada à ideia de corrupção e empobrecimento linguístico. As pessoas veem a quebra das normas, ou o relaxamento de certos cânones linguísticos, como uma ameaça à integridade ou sobrevivência da língua. Não só os estrangeirismos mas toda contravenção linguística parece atentar, no imaginário dos brasileiros, contra a unidade e a força do nosso português.

 

Por tudo isso vale ressaltar a importância da tolerância e da aceitação da pluralidade, sem preconceitos. Devemos nos abrir a novos horizontes, voltados, como bem sublinha a educadora Magda Soares, a “uma nova concepção de língua: uma concepção que vê a língua como enunciação, não apenas como comunicação, e que, portanto, inclui as relações da língua com aqueles que a utilizam, com o contexto em que é utilizada, com as condições sociais e históricas de sua utilização” (in Bagno. Linguística da Norma, 2002).

 

Por Maria Tereza de Queiroz Piacentini

Diretora do Instituto Euclides da Cunha

 


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