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Com referência ao cão brabo

Publicado em: 2017-06-14 14:50:10

 

 

 

 

 

 

Quando eu digo: em referência e referente? A.M.S., Recife (PE)

 

À primeira vista, o caso parece banal, mas sei que não é, pois muitas vezes já encontrei em redação de aluno a construção “Referente ao verbo, não há erro” quando deveria ser “Com referência (ou em referência) ao verbo, não há erro”.

 

A locução "com referência a" tem função prepositiva; é invariável. O substantivo referência é o núcleo de uma construção adverbial; nesta situação, a expressão pode ser substituída pelas locuções prepositivas que relacionamos abaixo:

 

  • Com referência a esses assuntos, é melhor consultar o chefe.

  • Com relação ao incêndio, não se sabe a causa.

  • Relativamente ao incêndio do mercado, ainda não temos o laudo.

  • Quanto à intenção do réu, nada ficou provado.

  • Não se sabe nada no tocante a/ no que toca a suas intenções.

  • No que tange a.

  • No que concerne a.

  • No que se refere a.

  • No que diz respeito a.

 

Já a palavra referente é um adjetivo, um qualificador de nome, e neste caso vem sempre depois de um substantivo; é variável (tem plural):

 

  • Ainda não li a crônica referente à atuação da CPI.

  • As providências referentes ao caso devem ser divulgadas.

  • Não serão publicados os artigos referentes à corrupção no Paço.

 

Pode comutar com outros adjetivos:

 

  • Li o artigo concernente à impunidade no Brasil.

  • alusivo.

  • atinente.

  • pertinente.

  • relacionado.

  • relativo.

  • respeitante.

 

Existe um aviso nestes termos: "O cão é bravo". Alguém que se diz abalizado em língua portuguesa critica e insiste que a palavra bravo para indicar a ferocidade natural de um animal (racional ou não) tem que ter a forma brabo. Pergunto: onde estaria o fundamento dessa afirmação tão categórica e intransigente? Eduardo, Minas Gerais

 

Nada nem ninguém deve ser tão categórico em questões linguísticas: tanto se pode fazer uma placa com "cão brabo" quanto com "cão bravo". Particularmente, prefiro a primeira forma, que é tida como coloquial e informal.

 

Quem for aos dicionários verá que bravo e brabo têm alguns significados em comum e outros distintos. Por exemplo, só bravo é palavra de aprovação (Bravo! Magnífico!). Já a mandioca venenosa é braba. O que é ruim, penoso, difícil, grave, geralmente se usa com "b": “passamos por uma fase braba; que erro brabo; êta inverno brabo”. Mas só se usa o "v" quando o significado tem a ver com coragem, bravura: “os bombeiros foram bravos; que mulher brava, suportou tudo”.

 

Também não se pode esquecer que as consoantes "b" e "v", por serem ambas fricativas, são facilmente permutáveis, como é o caso de bergamota e vergamota (ou a pronúncia “bassoura” por vassoura). Sendo assim, não está errado o indivíduo que chama seu cão feroz de bravo ou que diz “estou bravo” ao se irritar. Observa-se, contudo, uma preferência por brabo e brabeza quando se trata de zanga ou raiva, exaltação, arrebatamento, severidade. De qualquer maneira, fica valendo o gosto pessoal no uso de mar bravo ou mar brabo, discussão brava ou discussão braba, pessoa brava ou pessoa braba, por exemplo.

 

Por Maria Tereza de Queiroz Piacentini

Diretora do Instituto Euclides da Cunha

 


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