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Timbó Grande, o último reduto

Publicado em: 2014-01-28 17:42:33

Timbó Grande, uma pequena cidade do planalto norte catarinense, oficialmente teve sua ocupação com a vinda das famílias Alves de Almeida, Castro e Matos. Porém, os primeiros habitantes do município foram os índios dos grupos kaigang, conhecidos como coroados, e os xokleng, conhecidos como bugres ou botocudos. Esses índios viviam como nômades e moravam em choupanas de pau a pique, cobertas de palha. Ali se alimentavam de caça, pesca e frutos da terra. Hoje, já não existem mais índios no município; seus remanescentes estão aldeados no Vale do Itajaí e no oeste catarinense.

 

Os primeiros grupos humanos, provavelmente ligados às famílias pioneiras mencionadas, são diretamente ligados aos caboclos e caboclas, antes e durante a Guerra do Contestado; a esses, acrescentam-se os imigrantes que vieram para a região, oriundos do processo colonial que ocorria no estado e, sobremaneira, no planalto norte catarinense, basicamente italianos, alemães, ucranianos e polacos. Assim, a formação étnica timbó-grandense se caracteriza por uma rica mistura de muitas raças, fato perceptível na tez do seu povo atualmente, onde se percebe lindos traços numa mescla entre europeus, africanos e indígenas, fazendo do povo da cidade um povo com características típicas brasileiras.

 

O nome do município originou-se da existência de grande quantidade de árvore timbó - Ateleia glazioviana (Leguminosae - Papilionoideae) -, que, segundo o Instituto Brasileiro de Florestas, é uma árvore caducifólia, com cerca de 5 a 15 metros de altura e 20 a 30 cm de diâmetro, é moderadamente densa e com casca e alburno, desprende odor forte e desagradável. Por conta disso, é pouco apreciada, geralmente com uso local em construção civil, obras internas, forro, sarrafos, ripas, caixotaria, carpintaria e confecções de objetos leves. É uma espécie precursora e agressiva, jamais encontrada no interior de florestas. Apresenta regeneração natural intensa fora da floresta primária e, por isso, é indicada para conservação, recuperação de solos e de ecossistemas degradados. Foi muito utilizada pelos índios em suas pescarias. Já a palavra "Grande", acrescida ao nome do município, se fez para diferenciar este município do de Timbó, cidade que fica próxima de Blumenau.

 

Há poucos registros sobre a história de Timbó Grande, sendo que os fatos mais marcantes estão associados à Guerra do Contestado, quando milhares de mortes foram promovidas pelo Exército brasileiro, lavando de sangue os solos e os rios do interior daquela localidade - notadamente, em Santa Maria, onde se teve um verdadeiro genocídio.

 

A Páscoa de 1915 foi marcada, no Vale de Santa Maria, pela fome desesperadora, pelos bombardeios quase ininterruptos do Exército brasileiro - havia sido a Páscoa do genocídio. Os caboclos confinados naquele fundo de vale foram impiedosamente atacados pelo poder militar da “república do diabo” ao longo dos dias e noites da Quinta-feira Santa, Sexta-feira Santa, Sábado de Aleluia, e as tropas de Potyguara, tido, por mim, como o grande carniceiro do Contestado, adentraram Santa Maria no domingo da Páscoa. Um telegrama avisou ao Brasil, a Santa Catarina e ao Paraná que Santa Maria havia caído, que tudo estava queimado e que havia sido eliminada da região a dita horda de facínoras que pesteavam a paz nos planaltos e vales do Contestado - venceu a República, pelas bocas dos seus canhões.

 

Para se ter uma ideia do que foram aqueles dias, no Vale de Santa Maria, Potyguara registra nas incursões de entrada a queima de 902 casas, uma igreja, a morte de 133 caboclos e 22 soldados. E quando chega ao fundo do vale, aponta em seu relatório, outros 91 rebeldes e 18 soldados mortos. A partir do dia 3 de abril, mais uma centena de caboclos e de caboclas seria morta, mas não vale a pena ficar calculando o genocídio, porque a “queima geral” contida no seu relatório não permite saber quantos foram calcinados pelo fogo, dentro dos casebres e das mais de uma dezena de igrejas incendiadas.

 

Na entrada de Santa Maria, há, hoje, uma placa com os seguintes dizeres: “Este local, emoldurado pela natureza, serviu de cenário para a batalha final da Guerra Sertaneja do Contestado. Aqui terminou a maior luta dos brasileiros pela própria terra. Em 4 de abril de 1915, as tropas do Exército lideradas pela capitão Tertuliano Potyguara e pelo coronel Raul D'Estillac Leal, empreenderam um grande cerco que batizou o lgar de Vale da Morte. Mais de mil sertanejos foram mortos, entre eles mulheres e crianças; cinco mil casas e 11 igrejas foram destrídas.”

 

E Timbó Grande evolui lentamente entre os anos de 1915 e o século 21, tendo sua economia e vida atreladas à indústria madeireira. A luta pela emancipação foi lenta também, ocorrendo apenas no final do século 20. Antes de ser distrito de Santa Cecília, do qual se emancipou em 1989, Timbó Grande foi Vila de Curitibanos, cidade que dominava parcela considerável do planalto, por meio dos coronéis de fazendas de então, intimamente ligados à Guerra do Contestado.

 

O município de Timbó Grande foi criado em 26 de abril de 1989 e instalado oficialmente em 1º de janeiro de 1990, iniciando, aí, um processo duro e difícil de emancipação, de fato, para seu povo, pois com poucos recursos e estradas ruins, a produção sofria para ser retirada para os mercados consumidores dos produtos oriundos da madeira, fato que apenas melhoraria, nos últimos anos, com a pavimentação do trecho de 42 quilômetros da SC-478, que liga o município de Timbó Grande à BR-116, isso em agosto de 2008. A ligação tirou o município do isolamento, já que era um dos únicos municípios do planalto norte que ainda não possuía acesso asfaltado.

 

Dez anos depois da minha primeira visita de reconhecimento e pesquisas em Timbó Grande, retornei à cidade acompanhado de amigos, para uma caminhada que vislumbrava fazer uma caminhada com conhecidos timbó-grandenses que as organizam, por meio de uma trilha já previamente estabelecida de uns dez quilômetros. Era um retorno até Timbó Grande, cidade muito diferente da que conheci em 2004, agora cheia de vida, cores, alegria e com autoestima elevada - foi o que pude perceber!

 

Assim, falando a partir da alma e do coração, descreve-se um pouco do que se viu e se sentiu estando em Timbó Grande no dia 17 de janeiro de 2014.

 

Estimulados por mim no final de 2013, um grupo de estudantes, professores, aposentados e outros cidadãos, ligados com as atividades desenvolvidas no Observatório do Centenário da Guerra do Contestado (OCGC-Uel/UFPR), com o objetivo de exploração geográfica, histórica e antropológica nos sítios de batalhas da Guerra do Contestado e dos Espaços Sagrados do monge São João Maria, percorreram mais de 10 quilômetros por diversos pontos marcados na região central de Timbó Grande e nos arredores da cidade, coisa que descrevo na sequência.

 

Há que se mencionar o grupo que nos ajudou, recepcionou e acompanhou nessa caminhada histórica para o Centenário da Guerra do Contestado, em Timbó Grande: Jucelei Souza, Patricia X. A. Ribeiro, Marlene de S. Matos Lima, Leandro José Carneiro Almeida, Katiucy G. Pionezzer, Cristiane de Souza, Juraci J. de Lima Shaicoski, Nelci Xavier Leite, Livia Matos Fernandes de Lima, José Guedes Martrol, Humberto L. Dalpizzol, Jones Ferreira dos Santos, Emilliam Maia Leite Mouraes, Evaldo José Xavier Leite Stefones, Élita Sabrina, Iraci Ribeiro de Souza, Anderson Bueno da Luz, Jorge Matoso, Julio C. Gurski, João Batista do Santos, Vanessa Maria Ludka, Márcia E. Schüler, Alcimara Foetsch, assim como nossos cozinheiros, Alcides e Veve, além dos meninos Pedro Lima, Nathan e Victor, deixando-lhes aqui o meu agradecimento.

 

Era final das férias, 17 de janeiro, quando cheguei a Timbó Grande. Em dezembro, antes de ir para Florianópolis, havia manifestado à professora Jucelei Souza a minha vontade de fazer a caminhada com o grupo de Timbó Grande, pois eles já haviam procedido antes uma caminhada, cujas fotos tinha visto no perfil dela no Facebook, e com ela combinado a caminhada. E, pernoitando em Videira, no dia 16, saímos cedo para Timbó Grande, na madrugada do dia 17, juntamente com Vanessa Ludka e Márcia Schuler. Chegamos ao centro da cidade às 8h55, pois havíamos marcado a caminhada a partir das 9 horas daquela manhã. Estacionamos na frente da Igreja Matriz e fomos recepcionados pela professora Jucelei, que nos encaminhou até a praça da cidade, que fica nas proximidades do lago da barragem de uma antiga usina. Ali, já nos aguardavam os demais caminhantes, professores e comunidade, além de muitas crianças dispostas a enfrentar as subidas e descidas da trilha preestabelecida.

 

Depois de todos estarem devidamente apresentados, solicitaram que eu fizesse uso da palavra, para falar sobre Timbó Grande e a Guerra do Contestado antes de iniciarmos a trilha. Então falei sobre a importância e grandiosidade da Guerra do Contestado, da importância do último reduto, Timbó Grande, do Adeodato, Maria Rosa, Santa Maria, dos Centenários do Contestado e de como havia me surpreendido por estar em Timbó Grande dez anos depois e verificar uma cidade mudada e muito mais bonita. Passada essa fala inicial, o professor Zé Guedes colocou todos os caminhantes em processo de alongamento dos músculos, para facilitar as subidas que iríamos enfrentar.

 

Na sequência, o grupo rumou no sentido da casa da professora Lindarci Xavier Leite, onde teríamos nosso quartel general ao longo daquele dia 17 de janeiro. Da pracinha, atravessamos a ponte no centro da cidade e fomos margeando o rio e o lago da barragem, sempre vendo a cidade na outra margem, e fomos pisando em lama, pois havia chovido muito na noite anterior e nos dias que antecederam a caminhada. O grupo estava muito animado, o céu estava azul celeste, típico de um lindo dia de verão, com poucas nuvens brancas aparecendo por entre a vegetação do caminho e os prédios da cidade. E íamos conversando, sobre caminhadas, Contestado, Timbó Grande e o que iríamos ver no caminho.

 

Passando por uma propriedade particular, em meio a muita lama e grama molhada, fomos subindo o primeiro ponto da caminhada, sempre cercados por algumas araucárias que resistiram ao desmatamento secular e passando entre bois e vacas que calmamente ali pastavam, e alguns nos olhavam atentamente, pois invadíamos seu território de pastagem. À medida que íamos subindo, era possível ver a paisagem urbana de Timbó Grande surgindo no horizonte naquela manhã, com fumaça saindo de algumas indústrias madeireiras - Timbó Grande é uma cidade pequena, de pouco mais de sete mil habitantes e os prédios (casas) são vistos na medida em que ocupam os pontos mais elevados da morraria que a cerca a partir do fundo de vale. Não há edifícios altos, pois é uma cidade pequena e horizontal, bem distante, ainda, da verticalização que toma conta de muitas pequenas cidades do interior do Sul do Brasil.

 

Enfim, vencemos o primeiro trajeto, bem íngreme, de subida constante, com bela vista da paisagem urbana de Timbó Grande. Chegamos à casa da Lindarci, que nos recepcionou com um café da manhã, enquanto outros preparavam um almoço que nos ofereceriam depois da caminhada - iniciava, naquele momento, um dos aspectos mais marcantes desse dia de caminhada: a hospitalidade e o carinho dos que nos recebiam em Timbó Grande, abrindo suas casas, oferecendo-nos sua comida, sempre com sorrisos no rosto e muita conversa - eis que o espírito do Contestado, advindos dos ensinamento de São João Maria, estava presente: “Quem tem mói, quem não tem mói também, e no fim todos ficam iguais”. Foi isso que aconteceu!

 

Tomado o café da manhã, o grupo se reuniu e deu continuidade à caminhada, em direção ao interior, sempre subindo e descendo morrotes, passando por riachos e áreas alagadas, cercados por mata, ora nativa, ora exótica, de pinus. Acompanhou-nos nesse trecho a senhora Iraci Ribeiro de Souza, que foi conosco até a carneira das meninas que morreram de fome encostadas a uma árvore, ao final dos combates da Guerra do Contestado, no território de Timbó Grande. Com uma excelente memória, nos seus 75 anos de vida, dona Iraci sentou-se junto à carneira das meninas, sobre a bandeira do Contestado que carregava comigo e serviu-lhe de apoio e manteve suas roupas limpas. Com muita lucidez, dona Iraci foi contando suas recordações sobre o caso das meninas, mortas na época em que Adeotado, último líder caboclo, fez presença marcante no Timbó, no Santa Maria, no Caçador Grande, no Tamanduá e noutros recantos ainda preservados da região. Dona Iraci, a exemplo dos caboclos e caboclas do Contestado, chamava Adeodato por Liodato, tendo nele a figura de demônio, imagem essa construída pelos coronéis da época, pela polícia e pela história oficial catarinense e brasileira - falava sobre o flagelo de Deus!

 

Sobre as Meninas de Lábios de Mel, nome que dei para as três, quando na noite anterior conversava com o meu amigo Julio C. Gurski, em Videira, e refletíamos sobre o horror que elas viveram enquanto anjos perdidos numa floresta, em fuga de uma guerra que passava por cima de todos, incluindo velhos, crianças e enfermos - essas meninas transformaram-se em anjos da boca de mel, pois foi o que lhe passaram nos lábios os que fugiam do massacre final, indo no sentido norte, quando as encontraram agonizando no mesmo local onde estão sepultadas hoje, sendo que, naquele momento da passagem, uma das meninas já segurava no colo uma das imãs já morta. Diz dona Iraci que, quando parte das pessoas voltaram por aquela região, quando o clima era de menor violência e com retirada das tropas do exército da região, encontraram os ossos das meninas no mesmo local onde lhe haviam dado o mel para adoçar a hora das suas mortes; aí então, procederam o sepultamento delas, onde estão até hoje, quase cem anos depois, como se pode verificar na foto.

 

Estar na carneira das Meninas de Lábios de Mel, de Timbó Grande, foi algo que atingiu profundamente nossas almas, pois nos remeteu à violência impávida usada pelo estado, o nacional, mas também os estaduais, contra toda a população do Contestado naquela época. Foi a prova definitiva dos absurdos cometidos pelas forças, que não respeitaram nenhum código de ética de guerra, já existente naquele tempo, pois, ao matarem crianças famintas, velhos, enfermos, queimarem suas casas e suas igrejas com eles dentro, o estado se enquadrava como fruto de uma aberração monstruosa em sua essência, quando se pensa que irmão estava matando irmão, brasileiro matando brasileiro, numa guerra civil marcada pelos interesses do capital estrangeiro e dos coronéis de fazendas do planalto norte catarinense. São coisas que apenas comprovam, de fato, o genocídio cometido no sertão do Contestado.

 

Creio que isso deve ter tocado os corações dos meninos e das meninas que foram conosco na caminhada. Tendo mais ou menos a mesma idade das três meninas que morreram de forme, ficaram com semblante firme na história contada por dona Iraci. Muito compenetrados, seus olhares para aquela senhora denotavam a descoberta de um mundo novo sobre a terra em que nasceram e vivem, uma terra que foi lavada pelo sangue de crianças da sua idade, que não tiveram uma escola, que não tiveram futuro algum. Os meninos e meninas que caminharam conosco o dia todo são os atuais anjos do Timbó Grande, vivendo outra época, tendo, inclusive, a garantia de que o futuro existe. Mas só existe porque as meninas pagaram o preço de viver o inferno da Guerra do Contestado, para que cem anos depois se possa construir uma vida de felicidade a partir dos fragmentos de corpos calcinados deixados no chão timbó-grandense.

 

Caminhar sobre corpos e carneiras é caminhar por Timbó Grande, mas só há futuro e felicidade quando se caminha pelo mundo real, reconhecendo aquilo que se é, reconhecendo aquilo que se viveu, reconhecendo a dor do passado, para, só assim, continuar avançando e olhar um horizonte melhor. Essa dor do passado é a alma de Timbó Grande e o Timbó será sempre grande, porque ele tem impregnado em si uma das passagens mais cruéis da formação da nação brasileira, fazendo dessa cidade catarinense uma das mais importantes na consolidação republicana.

 

Extasiados com os ensinamentos da dona Iraci, com sua lucidez e memória ativa sobre as coisas de Timbó Grande, continuamos a caminhada, pois ainda faltam muitos quilômetros, mas, antes de partir, tiramos da mochila um pote de mel, que havíamos comprado na estrada, e, num ato simbólico, lançamos o mel sobre a carneira das Meninas de Lábios de Mel, desejando que as crianças de Timbó Grande nunca mais precisem viver esse tipo de horror e que, da mesma forma, nunca falte mel para adoçar os anjos atuais desta querida cidade do Contestado.

 

Deste espaço onde estava depositado o corpo das meninas do Contestado, a caravana de caminhantes seguiu seu rumo, passando entre pínus intercalados com algumas árvores nativas, até alcançar terras mais planas, mas impregnadas de água, dificultando nossos acessos e tornando a caminhada mais emocionante, remetendo-nos aos tempos da Guerra do Contestado, em que a dificuldade de deslocamento era marcante para os caboclos e muito mais para os soldados e a parafernália de coisas pesadas que eles carregavam nas costas e nos lombos das mulas que avançam com eles pelas matas, para depois atacarem e destruírem Santa Maria e outros redutos do Contestado.

 

E continuamos andando, passando por propriedades particulares e sendo cumprimentados pelos moradores curiosos sobre o grupo. Depois de mais uma subida, chegamos a uma estrada vicinal municipal e por ela seguimos até a sede de Timbó Grande, mas antes passamos e paramos numa pequena cachoeira na beira da estrada, para descansarmos e relaxarmos um pouco antes de seguir. Ali, os meninos que nos acompanhavam se aventuraram a enfrentar as águas frias de montanha que cortam todas as terras do Timbó Grande, município detentor das águas mais puras de Santa Catarina. Foi um refresco para as crianças alegres e falantes que nos acompanhavam, cheias de vida, como se deve ser na idade deles.

 

Por fim chegamos à cidade, já bastante cansados e com o gosto da gabiroba na boca, pois muitos pés de gabirobas foram sendo encontrados e se tornaram nossos lanches na caminhada - os meninos subiam nos pés e pegavam as gabirobas maduras para os adultos - e como eles se sentiam importantes com isso!

 

Depois da caminhada, novamente na casa da Lindarci e sua família, fomos recepcionados com um delicioso almoço cotizado pelos novos amigos do Timbó Grande, nossos anfitriões. Havia delicioso porco feito no tacho, maionese caseira, arroz, saladas, pães, bebidas, muita conversa, muitos sorrisos, muitas histórias para contar - foi um almoço para mais de 30 pessoas.

 

Depois de descansar do almoço, resolvemos visitar a Gruta Santa Emídia, na localidade de Cachoeira, distante uns doze quilômetros da sede do município, pois lá se encontra um espaço sagrado de São João Maria, seguindo o padrão de muitos desses espaços em território catarinense, por onde o monge passou e suas águas se tornaram milagrosas, com muitos ex-votos. Geralmente, grutas com nomes de Santa Emídia são, na fé histórica cabocla, uma junção dos nomes eremita, ermida e, logo depois, vira Santa Emídia, sendo, na realidade, um espaço sagrado do eremita, o monge. Surpreendente foi provar as águas daquela gruta, puras e leves, saindo das rochas. Todos beberam e lavaram seus rostos naquelas águas puras, refrescando um dia de caminhada sobre forte sol em Timbó Grande. E de lá, daquela pequena localidade interiorana, por onde passou o monge, retornamos para a cidade e dela, para Videira, de onde havíamos saído na madrugada do dia 17 de janeiro.

 

Mas vou terminar meu relato de um dia mágico, feliz e de caminhada puxada morros acima, em Timbó Grande, transcrevendo o relato de uma querida amiga que esteve conosco nessa epopeia e brindou comigo, a hospitalidade dos timbó-grandenses - esses que agora são irmãos na luta por um Contestado, e ainda em guerra.

 

Márcia Schüler comenta que, "sexta-feira foi um dia especial, dia de campo com amigos, cientistas, pesquisadores e pessoas pra lá de legais em Timbó Grande, onde meu Contestado é vivo em cada raiz de imbuia no chão, em cada ondulação do terreno, em cada bela araucária em pé, na fala e na maneira generosa das pessoas... Aprendi muito, vivi intensamente o sol, as águas, os caminhos, as histórias, os olhares e, principalmente, o que vai pela alma das pessoas e da cidade que reconheci depois de 20 anos. Meu coração ficou emocionado com a visita ao local onde três menininhas padeceram de fome ao final da guerra e foram alimentadas com um tantinho de mel que outras crianças, fugindo do conflito, colocaram em suas boquinhas... em vão, pois elas morreram... mas não morreu a generosidade e o espírito de paz do povo caboclo que, mesmo em sua extrema miséria, não se recusa em dividir e compartilhar com quem também precisa... 'quem tem mói e quem não tem mói também' era o dito do monge que ficou na alma das pessoas e vi refletido agora mesmo, sexta-feira, dia 17 de janeiro de 2014, nas pessoas com quem me encontrei e generosamente disponibilizaram o tempo, a sabedoria e a comida e dividiram comigo, uma estranha até então... Obrigada, gente linda do meu Contestado, por manter em meu coração acesa a chama da esperança em dias melhores e numa humanidade mais amorosa e mais feliz. Obrigada, meu Nilson Cesar Fraga, por me apresentar e conduzir por este mundo cheio de vida e expectativas... Amo o meu Contestado..."

 

Márcia Schüler resume nossos sentimentos e tudo o que vivemos em Timbó Grande, terra amada do Contestado catarinense. Terra que encantou nossos corações, terra que nos receberá, no inverno deste ano de 2014, para mais uma caminhada com seu povo, sobre seu chão cheio de histórias.

Obrigado, Timbó Grande, por nos receberes! Obrigado, timbó-grandenses, por nos acolherem! Em julho estaremos aí, caminhando com vocês!

 

Por Nilson Cesar Fraga

Geógrafo e professor na Uel e na UFPR

 

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