Folhablu | Thomazinho


Thomazinho

Publicado em: 2012-06-15 17:17:51

Vai assim mesmo, no diminutivo com o qual os amigos carinhosamente o chamavam: Thomazinho. Quanto mais o tempo passa, mais ele permanece Thomazinho, vivo no afeto que se encerra em nosso peito juvenil. Depois da assustadora entrevista do ex-delegado do Dops, Cláudio Guerra a Alberto Dines, no dia 5, no programa Observatório da Imprensa, Thomazinho ficou mais Thomazinho que nunca na nossa lembrança, em nós que não queremos, que não podemos esquecê-lo. Quem não o conheceu passou a chorá-lo.

Thomaz Antônio da Silva Meirelles Netto, o Thomazinho, nascido em Parintins, ex-aluno do Colégio Estadual do Amazonas, ex-secretário geral da União Brasileira de Estudantes Secundaristas (Ubes), é o único amazonense incluído na lista oficial dos desaparecidos na ditadura militar. Filho de dona Maria, companheiro da Miriam Malina, com quem teve dois filhos - Larissa e Togo - ele foi preso no dia 7 de maio de 1974, quando viajava do Rio para São Paulo. De lá pra cá, nunca mais foi visto.

Agora, quem nos dá notícias dele é o ex-delegado do Dops, Cláudio Guerra, atirador de elite, que aprendeu seu ofício com instrutores norte-americanos e treinou com especialistas em terrorismo e espionagem do serviço secreto de Israel - o Mossad, conforme declarou a Alberto Dines. Participou ativamente da repressão, seguindo as palavras de um de seus instrutores que lhe ensinou: "Existem os que morrem e os que matam, você tem que escolher seu lado".

Cláudio escolheu. Embora diga que não torturou, admite ser responsável por mais de 20 mortes: "Tirei vidas, só a misericórdia de Deus para perdoar". O ex-policial conta que recentemente encontrou Deus, que se converteu e, por motivação religiosa, para "encontrar a paz de espírito", se arrependeu de seus pecados. Ele acredita no inferno, aquele criado por Dante na Divina Comédia. Está com medo, com toda razão, da justiça divina. Por isso, resolveu se confessar. Escreveu o livro Memória de uma Guerra Suja, lançado no mês passado, para exorcizar os demônios que hoje o atormentam, onde conta histórias de assassinatos e torturas durante a ditadura militar. Na entrevista, ele elucida:

“Hoje mais uma história triste para esclarecer, é do desaparecido político Thomaz Antônio da Silva Meirelles. Esse fato só veio à minha memória posterior à edição do livro, não consta do livro essa história, por isso eu estou vindo a público agora para poder esclarecer".

"É... eu recebi um chamado do coronel Perdigão, como sempre era ele que fazia, e fui ao quartel da Barão de Mesquita, entrei no quartel... No pátio, você entrando pela guarda, você chega num pátio... E onde ali a tropa faz exercícios físicos, com pranchas abdominais, tem lá, acho que tem isso até hoje. Até uns anos atrás ainda tinha isso lá... E no fundo ficava o quartel... O presídio, que é um prédio com dois pavimentos, uma construção com dois pavimentos, à época existia também uma parte subterrânea. Não sei se tem hoje".

"E ali o coronel Perdigão me entregou um corpo que estava num saco preto, né, e o subalterno dele, era comum, eles nunca dirigiam a mim a palavra porque existia uma separação entre o meu grupo... O grupo que eu servia e aquele grupo que estava ali de militares. O coronel fazia uma... Pela disciplina que não tivesse conhecimento um dos outros, pois justamente para preservar o segredo da operação".

"Ele me entregou esse corpo ali, eu não olhei, via de regra às vezes eu examinava, mas esse aí eu não examinei, e quando chegou em Campos que eu abri o saco para poder ver quem era, vi que se tratava de um homem aparentando ter mais ou menos 40 anos, por aí, ou talvez menos. E muito machucado, ele estava apenas vestido com um calção, não tinha as unhas das mãos, estavam arrancadas, o rosto bem desfigurado pelas torturas, sinais de queimaduras...".

"É triste estar falando isso para a família, mas a família precisa saber a verdade, saber o que aconteceu com o seu ente querido. Não justifica, não tem desculpa, não quero me eximir de culpa, mas esse esclarecimento eu devo à família, como eu devo a todas as famílias. Foi erro, foi passado, foi uma guerra suja como está no livro. Mas hoje eu me penitencio, porque hoje eu sirvo a Deus, eu quero é o perdão de Deus. E se a sociedade entender que isso é um dever, não só meu, mas de todos aqueles que erraram... E voltar e falar do que fizeram de errado é o momento de nós nos... Não nos punirmos, mas poder esclarecer e olhar para Deus e para o homem sabendo que foi errado, para que não se repita mais”.

A brutalidade da cena no depoimento descritivo e o tom objetivo e distanciado do policial arrependido agridem nossa humanidade, mesmo que não se tratasse de Thomazinho, um militante querido que pagou com sua vida o ideal de mudar o mundo, mesmo que fosse alguém desconhecido, um bandido, um facínora ou um bicho. No caso, o discurso do policial não só reafirma a heroicidade de Thomazinho, mas também nos entrega essa "verdade" que estava sendo sonegada.

A pergunta agora é: quem matou Thomazinho, quem foram os responsáveis por essa cena de horror? Um dia antes da entrevista citada, a Comissão da Verdade se reuniu, na última segunda-feira, pela terceira vez desde que foi instalada em maio. Na ocasião, o ministro da Defesa, Celso Amorim, afirmou que as Forças Armadas irão disponibilizar todas as informações que a Comissão da Verdade solicitar para apurar as violações aos direitos humanos. Será?

Cabe, então, requisitar e abrir os arquivos dos centros de informação do Exército (Cie), da Marinha (Cenimar) e da Aeronáutica (Cisa), que formavam o sistema de inteligência das Forças Armadas no período da ditadura. O coronel Perdigão está morto, parece, cabe, no entanto convocar Cláudio Guerra e quem mais possa fornecer informações sobre os torturadores e assassinos de Thomazinho.

Coube a Tomazinho desempenhar o papel de resistência heróica, como o personagem da Ilíada, com vida curta, mas gloriosa, arrancada pela barbárie de uma guerra reconhecida por seus próprios artífices como "suja". Cabe agora à história desentranhar dos porões as histórias que nos permitam conhecer os tomazinhos e seus carrascos, para conseguir digerir esse capítulo dantesco.

Essa é uma legítima reivindicação da nossa memória.

Por José Ribamar Bessa Freire

Escritor


Fale com a Folhablu

Fones: (47) 3232 7154 | 9138 4105
Redação: webmaster@folhablu.com.br
Comercial: comercial@folhablu.com.br
Financeiro: financeiro@folhablu.com.br
Skype: skype@folhablu.com.br

Blumenau – SC
Folhablu notícias e publicidade digital - Todos os direitos reservados
Proibida a reprodução total ou parcial