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Brasília revisitada

Publicado em: 2013-10-21 15:07:35

Para Clarice e Lucas, meus filhos, que aqui nasceram

 

Não, não quero falar da cidade estigmatizada, dos poderes - podres ou não.

 

Não a urbe oficial, dos altos tecnocratas, dos políticos que só conhecem o aeroporto, carros oficiais, palácios, ministérios, o Congresso, restaurantes chiques, e boates de “moças de luxo” - caras, da mais antiga profissão.

 

A cidade que amo é outra.

 

Das chuvas de janeiro (que agora pararam) de tantas mangas, dos verdes belos, das goiabas crescendo, da Clarice, do Lucas, dos piqueniques improvisados, do Parque da Cidade, e de tanta gente honrada que aqui labuta e corre atrás dos seus sonhos.

 

Mudar essa imagem eu sei que não vou.

 

Mas creio que o meu papel é o de “evangelizador laico”.

 

Se mudar uma só visão, um só olhar estereotipado, ficaria compensado.

 

Eis-me de volta, provisoriamente, da primeira para a última capital.

 

Não, os poderes já não me interessam.

 

Cada momento é um lugar onde nunca estivemos.

 

E tento redescobrir cada momento.

 

O que é o tempo? Pergunto-me sempre - desde que iniciei no ofício de tecer palavras.

 

Virgílio captou magistralmente: “Sede fugit interea , fugit irreparabile tempus” (mas ele foge, irreparavelmente o tempo).

 

E Clarice Lispector pergunta: “Oh, Deus, que faço desta/felicidade ao meu redor/que é eterna, eterna, eterna/e que passará daqui a um instante/porque só nos ensina/a ser mortal?”

 

Mas o que queria dizer?

 

Que há uma cidade escondida, além do olhar apressado.

 

Há uma cidade mais funda - das linhas retas.

 

Algo que ficará, além das celebridades vãs, da vida de gente que se atribui muita importância - ministros e deputados que logo serão esquecidos.

 

Quem se lembra de Médici? Quem se esquecerá do doutor Oscar e de Lúcio Costa?

 

É por essa razão que dedico o curto texto ao Lucas e à Clarice.

 

Não são “candangos”, pioneiros.

 

Ele está com 10 anos, ela com 27.

 

E há algo de novo nos seus olhares.

 

Esperança?

 

E enquanto escuto um pássaro cantando, o sol batendo na mesa em que escrevo, não consigo evitar o lugar-comum: há que celebrar a vida. Algo do nosso trabalho ficará - ficará. E sei que toda a glória é finita, que é sempre assim (apenas passamos). E o tempo foge.

 

Por Emanoel Medeiros Vieira

 


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