Folhablu | Sociedade de Pediatria de São Paulo adverte: falta de especialistas coloca as crianças do Brasil em risco de morte


Sociedade de Pediatria de São Paulo adverte: falta de especialistas coloca as crianças do Brasil em risco de morte

Publicado em: 2014-01-21 14:55:47

Diferentemente de outras especialidades médicas, que têm a possibilidade de realizar exames ou procedimentos, a única fonte do pediatra no Brasil é a remuneração pela consulta ou por plantões. Com as baixas remunerações dessas atividades tanto no sistema público quanto na rede suplementar, os jovens médicos não se interessam mais pela pediatria.

 

As consequências são trágicas. Além da falta de especialistas, que já pode ser notada em diversas partes do país, as importantes consultas rotineiras de puericultura estão sendo substituídas pelo atendimento no pronto-socorro. Com isso, escasseiam as consultas preventivas nas quais são realizadas as orientações com o intuito de promover mais saúde e evitar doenças e acidentes.

 

Assim, as crianças adoecem mais, acidentam-se mais, e morrem mais. O doutor Mário Roberto Hirschheimer, presidente da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP), alerta, ainda, para as condições inadequadas de trabalho destes especialistas, o que também contribui para a fuga de profissionais do atendimento adequado de crianças e adolescentes. Confira!

 

Está realmente faltando pediatras no país?

 

Mário Roberto Hirschheimer: Um atendimento pediátrico adequado deve contemplar promoção, proteção e recuperação da saúde, levando em consideração as diversas fases do processo de crescimento e desenvolvimento da criança, com o propósito não só de fazer diagnósticos e indicar tratamentos, mas também de orientar os pais nos cuidados para com os seus filhos. Por isso uma consulta de puericultura é muito mais demorada.

 

No estado de São Paulo, temos a proporção de 2,7 médicos por mil habitantes, o que é adequado. Entretanto só há 0,7 pediatra para cada mil habitantes entre zero e 20 anos incompletos, que é a faixa etária da atuação da pediatria. É importante enfatizar que o pediatra é o médico com competências e habilidades para atender o ser humano em crescimento e desenvolvimento. Portanto, não há pediatras suficientes para atender o conjunto de crianças e adolescentes em todo o estado nas suas várias formas de atendimento, incluindo consultas de rotina, urgências e emergências.

 

Para citar alguns dados: na década de 90 houve um aumento na procura pela especialização em pediatria de 67% por parte dos acadêmicos de medicina que se formavam. Se compararmos os números de 1999 com os de 2013, houve queda de 55% dos candidatos ao título de especialista em pediatria. Se considerarmos nesse cenário que houve um significativo aumento do número de faculdades de medicina, com consequente aumento no número de novos médicos, proporcionalmente a queda foi brutal. Se há 15 anos, 15% a 20% dos formandos procuravam a pediatria como especialidade, hoje esse número é inferior a 8%.

 

Outro aspecto a ressaltar: enquanto na classe médica como um todo existe uma predominância do sexo masculino sobre o feminino de aproximadamente 60% e 40% respectivamente, na pediatria essa proporção é de 75% para o sexo feminino e 25% para o masculino, com tendência a aumentar a desproporção, pois dentre os residentes de pediatria hoje, a porcentagem do sexo feminino é de 85% e do sexo masculino é de 15%. A mulher pediatra, quando decide ter seus filhos e por conhecer a importância do papel de mãe, tende a reduzir sua disponibilidade para plantões e diminui sua carga horária rotineira para se dedicar mais à família. Este é mais um fator que diminui a disponibilidade de profissionais para o atendimento pediátrico.

 

Que tipo de problema essa situação gera?

 

Hirschheimer: Pela dificuldade de agendar uma consulta pediátrica, as mães acabam não levando os filhos para o consultório, mas para o pronto-socorro. Para muitas existe o mito da resolutividade do pronto-socorro, onde o atendimento é imediato, sem marcação de horário, o médico já faz um diagnóstico, indica um tratamento e o problema está resolvido. O pronto-socorro deixou de ser um serviço para atendimento de urgências e emergências para se tornar um serviço de conveniência.

 

Essa ideia é completamente equivocada! É no consultório de pediatria e puericultura que a criança vai ter um atendimento que visa promover a saúde, prevenir doenças e receber orientações importantes sobre cuidados que a criança requer. Eu mesmo atendo em pronto-socorro e sempre enfatizo que lá só é dada atenção inicial à urgência ou emergência que motivou aquele atendimento e que é importante, nos próximos dias, marcar consulta com o pediatra da criança para receber dele não só a orientação sobre a continuidade do tratamento, mas também sobre o acompanhamento necessário ao restabelecimento e manutenção da boa saúde do paciente.

 

O que mais ouço das mães é: “ah, mas consulta com pediatra, só daqui a três meses”. Isso ocorre até mesmo para quem tem plano de saúde. Esta situação está colocando toda a geração das crianças de hoje em risco.

 

Em sua opinião, que fatores geram essa deficiência de pediatras?

 

Hirschheimer: É preciso entender a complexidade do atendimento pediátrico. A pediatria é uma especialidade que exige do profissional um conhecimento da evolução biológica e psicológica do ser humano do nascimento até a idade adulta. É mais complexa do que muitas outras especialidades que atendem adultos. A competência do pediatra e o tempo dispendido para desempenhá-la não estão sendo recompensados com uma remuneração justa por parte das operadoras de planos de saúde.

 

O atendimento ambulatorial em puericultura, que remunera o pediatra melhor que por uma consulta comum, faz parte do rol de procedimentos e eventos em saúde da ANS a partir de janeiro de 2014. O pagamento deste procedimento por parte das operadoras de planos de saúde deveria ser obrigatório, mas poucas, até agora, o adotaram.

 

Para ter o conhecimento necessário para o atendimento pediátrico adequado é necessário muito estudo e dedicação. A evolução da especialidade foi de tal ordem que gerou a necessidade de estender os programas de residência médica em pediatria, atualmente com duração de dois anos, para três, a partir de 2015. Esse prolongamento se faz necessário para que todo o treinamento nas habilidades e competências imprescindíveis possa ser assimilado pelo futuro pediatra. Então, começa aí mais uma complicação: se já há escassez de pediatras agora, com um ano a mais de residência para sua formação profissional, ficará pior, pois retardará transitoriamente a sua entrada no mercado de trabalho.

 

Como vê a questão da sobrevivência na pediatria?

 

Hirschheimer: Não existe qualquer outro modo do pediatra ser remunerado que não a consulta, diferente de muitas outras especialidades. Só para exemplificar: um cardiologista por vezes precisa realizar eletrocardiogramas no consultório, o que aumenta seus rendimentos. Assim os formandos em medicina procuram outras áreas, como as de medicina diagnóstica, estética ou que usam tecnologia complexa, que possibilitam a realização de outros procedimentos além da consulta, mais bem remunerados. Já ao pediatra, para aumentar seus rendimentos, resta trabalhar em carga horária brutal, fazendo com que muitos se desinteressem e optem por uma especialidade que lhes dê direito a uma vida mais confortável. Para agravar mais a situação, a rede pública remunera mal o médico, sobretudo quando comparada aos plantões na rede privada. Assim, os hospitais particulares estão absorvendo praticamente a totalidade dos bons pediatras que são formados hoje em dia.

 

Então os recém-formados não abrem mais consultórios?

 

Hirschheimer: A maioria não tem interesse. O valor pago pelas operadoras de planos de saúde é, na maioria, ao redor de 66 reais por consulta e a despesa que um pediatra tem para manter seu consultório chega a 55 reais por paciente. Ou seja, não vale a pena, a não ser que o pediatra atenda um paciente a cada dez a quinze minutos. Um profissional comprometido com um bom atendimento acaba optando por não abrir consultório.

 

Aproveitando o assunto, faço um alerta sobre a exigência de produtividade no mínimo de quatro atendimentos por hora na rede pública. Para muitos dos gestores desses serviços, a expectativa é que cada pediatra atenda de 60 a 72 consultas em doze horas. É muito frustrante ter de atender em poucos minutos, porque as queixas que chegam são quase sempre muito vagas, como: meu filho está chorando muito ou está com febre ou não está comendo bem. Este tipo de queixa requer um processo de investigação complexo. Não há dúvida de que uma consulta em serviço de urgências deve ser ágil, mas não pode ser realizada com pressa! A exiguidade de tempo para atendimento acaba gerando um enorme número de pedidos de exames que poderiam não ser necessários caso o médico tivesse tempo para realizar e analisar a história clínica do paciente e fazer um exame físico detalhado. Mas isso toma tempo! Pressionado por tais circunstâncias, há uma maior solicitação de exames, o que, além de elevar os custos do atendimento, acresce riscos para as crianças, que, tendo seu sangue colhido repetidas vezes, podem desenvolver anemia e, se expostas a raios-X em excesso, correm o risco de doenças neoplásicas no futuro. Contribui ainda mais para isso o fato de que são raros os serviços que dispõem de tecnologia própria para crianças, tirando mais sangue e expondo-as a cargas maiores de raio-X por usarem as mesmas técnicas que usam para adultos.

 

Na sua opinião, qual o tempo ideal para a realização de uma consulta?

 

Hirschheimer: Para uma consulta de puericultura, é o tempo necessário para que se possa avaliar o estado de saúde da criança, seu crescimento e desenvolvimento neuropsicomotor, dar toda a orientação necessária sobre cuidados, remédios, vacinas, alimentação adequada e como prepará-la, estímulos para a criança se desenvolver bem, como evitar acidentes na faixa etária, etc. Deve ser de, pelo menos, 30 minutos. Através de uma abordagem mais profunda é possível detectar problemas da família ou da escola que estão prejudicando a criança. Afinal, a missão do pediatra é orientar a formação de cidadãos capazes de contribuir para a construção de uma sociedade melhor e mais saudável - o pediatra é o centralizador deste saber, pois, mesmo não utilizando tecnologia de custo elevado, ele exerce uma atividade de alta complexidade.

 

Deve ser considerado, ainda, o significativo ganho econômico para os sistemas de saúde, pois o bom atendimento pediátrico acarreta redução de internações hospitalares e da utilização de procedimentos diagnósticos e terapêuticos, com grande economia de recursos financeiros, e representa, acima de tudo, um avanço imensurável na qualidade de vida da infância, da adolescência e, consequentemente, da população em idade produtiva da sociedade brasileira.

 

A criança brasileira tem o direito à assistência médica qualificada e eficaz assegurado pela Constituição Federal (artigo 227), sendo dever do estado e de toda a sociedade prover os mecanismos para que os recursos direcionados à saúde sejam otimizados em seu benefício. Estabelecer remuneração digna para os pediatras faz parte deste dever, considerando que é mais econômico pagar um bom médico do que gastar ao remediar. Portanto, é preciso que o atendimento pediátrico seja mais valorizado.

 


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