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O futuro do jornal

Publicado em: 2010-02-08 16:07:40

Em tempos de crise no jornalismo impresso, dois dados impressionam: o primeiro é que, paradoxalmente, a maior empresa de mídia do planeta, o Google, não produz qualquer conteúdo. O segundo é que a maior marca de mídia impressa do mundo, o New York Times, perdeu 50% de sua circulação paga nos últimos cinco anos. Neste contexto, o profissional da área precisa repensar seu espaço no mercado. O livro Jornalismo Online: Modos de Fazer (Editora Puc-Rio/Sulina, 2009), organizado por Carla Rodrigues (comunicação social, Puc-Rio), traz reflexões sobre o impacto e os desdobramentos do uso da internet comercial como lugar da prática jornalística, enfocando temas como formação, emprego e conteúdo.

Apesar de acreditar que no Brasil ainda é cedo para pensar no fim do jornal impresso, Carla afirma que, hoje, é preciso que o profissional de qualquer mídia domine as ferramentas da internet. Diante da quantidade avassaladora de informação que é produzida todos os dias, a autora diz que o papel do jornalista é indispensável. Nesta entrevista, Carla Rodrigues, que trabalha com jornalismo na internet desde 1995, fala sobre o futuro do jornal, o novo modelo de notícia, o perfil do profissional na era da convergência.

Com a crise do jornalismo impresso e a não consolidação dos sites comercialmente, como resolver a questão do conteúdo para o webjornalismo?

Carla Rodrigues: Os sites estão ainda tentando se resolver comercialmente. Um bom exemplo disso é a Folha de S. Paulo, que este ano fez uma reformulação do seu jornal impresso associada a uma reformulação do site. A Folha passou a ser um jornal mais analítico e crítico, e jogou para o site o que era o noticiário em tempo real. Ela está tentando fazer um esforço de diferenciação dos dois tipos de conteúdo. Isso é uma estratégia possível. Já O Globo está fazendo outra aposta, tentando espalhar conteúdo pela maior quantidade possível de plataformas. Você pode ler notícia no celular, na web, no iPhone, em tudo quanto é lugar. A campanha publicitária do jornal é inclusive baseada nisso. Acho que, como a web é, hoje, uma plataforma indispensável para o jornalismo, as empresas vão continuar tentando viabilizar os sites comercialmente.

O que você acredita que aconteceria com a produção de notícias caso os veículos impressos fossem extintos?

Carla: Não vejo a menor perspectiva de os veículos impressos serem extintos. Acho que eles vão sempre se transformar, mas não serão extintos. O difícil é se transformar, porque isso exige gastar dinheiro. Nem sempre as empresas estão dispostas a fazer esses investimentos. No livro, por exemplo, o último artigo, do jornalista Pedro Doria, fala sobre o risco de acabarem os jornais impressos. Algo que me parece muito interessante no artigo é que ele mostra como são diferentes as realidades entre Brasil e Estados Unidos. Nos Estados Unidos, já se pensa, sim, em fechar alguns jornais. No Brasil, a situação é completamente diferente. Para nós, ainda é muito prematuro pensar em fim do jornal de papel.

Que mudanças precisariam ser feitas para que o jornal impresso sobreviva?

Carla: Acho que a principal mudança é reconhecer que, hoje, não se lê mais o jornal para se informar do que aconteceu na véspera. O leitor já acorda de manhã sabendo tudo o que aconteceu no dia anterior. Lê-se o jornal para ter reflexão crítica ou grandes reportagens investigativas, que não têm espaço na web. As duas coisas custam dinheiro.

Você acredita que existe, hoje, a possibilidade de grandes veículos de comunicação se sustentarem apenas na internet?

Carla: Sou a pior pessoa para responder essa pergunta, porque trabalhei em duas revistas exclusivamente eletrônicas, entre 2000 e 2007, que acabaram justamente porque não conseguiram se sustentar na web. Acho que ainda é um projeto muito pretensioso para o mercado brasileiro – em que, por mais que já se tenha expandido o número de acessos à internet, ele ainda é percentualmente muito pequeno em relação ao total da população.

O acesso à internet é, então, o principal problema para a consolidação de veículos online?

Carla: Esse é o primeiro dos problemas. Começa assim: há ainda pouco acesso à internet, percentualmente. O segundo problema está no fato de que o acesso à internet ainda é caro. O terceiro reside no fato de que o acesso à web depende de um tipo de leitor mais qualificado, que saiba usar bem a internet. Então, são vários passos que ainda precisam ser dados para se chegar lá. Todo mundo sabe como usar um jornal: ou você lê de frente para trás ou você começa no esporte, e lê de trás para frente.

O jornalismo na internet modificou a estrutura da notícia?

Carla: Sem dúvida. Um dos artigos do livro, do professor Leonel Aguiar, discute critérios de noticiabilidade modificados a partir da internet. Hoje, tudo o que se faz para a internet tem um caráter provisório, que depois vai se consolidando e se confirmando para sair no impresso. Vou dar um exemplo bem simples. Quando o avião da Tam caiu e pegou fogo, em São Paulo, em 2007, as primeiras notícias diziam que havia um incêndio próximo ao Aeroporto de Congonhas. Essa notícia foi ganhando mais “nitidez”, um conceito que Antonio Fidalgo, autor de um artigo do livro, usa. A primeira informação que foi para a internet ainda era um pouco embaçada: sabia-se apenas que estava pegando fogo em algum lugar. Ao longo da noite, essa notícia foi ganhando nitidez, até que se pôde saber que era um avião da Tam que tinha caído em cima de um posto de gasolina. Nesse espaço de tempo, quando não se tinha o jornal online, quem geralmente trabalhava com isso eram o rádio e a televisão. Hoje, o jornalismo na web acaba fazendo esse papel, com uma vantagem, que é o fato de que ele está disponível para consulta. Isso é diferente do rádio ou da televisão, em que, se o espectador ou ouvinte não estiver ligado na hora em que a notícia é emitida, ele perde a informação. Na web, ao contrário, na hora em que o internauta entra, ele se informa. É a associação dessas duas coisas que faz com que o jornalismo em tempo real hoje tenha tanta importância, porque, a rigor, a televisão e o rádio sempre puderam fazer o que a internet pode fazer.

Qual é a influência das novas tecnologias na quantidade e na qualidade dos empregos oferecidos aos jornalistas?

Carla: Na qualidade, certamente há um impacto negativo. Hoje, um jornalista de redação precisa dar conta de produzir para diversas mídias e formatos. Tenho alunos trabalhando em redação de jornal que escrevem para o jornal e fazem VT (videotape) e áudio para o site. Eles ganham o mesmo para fazer todas essas coisas. Isso significa que a qualidade do emprego diminuiu. Mas é preciso também considerar que, hoje, praticamente todos os grandes negócios de comunicação têm sites, e, portanto, precisam de profissionais que trabalham com as novas tecnologias para produção de conteúdo. Então, por outro lado, surgiu uma oferta de vagas nessa área de web e de outras plataformas digitais, como celular.

A difusão de blogs na internet ameaça o papel do jornalista como produtor de notícia?

Carla: Em seu artigo no livro, Carlos Castilho diz que sim, que há essa ameaça. A posição dele é a favor dessa produção de conteúdo colaborativa, de gente que não é jornalista e que produz conteúdo de grande interesse e importância. Convidei-o para escrever para o livro por causa dessa defesa que ele faz e porque já conhecia seu trabalho no livro No Próximo Bloco: o Jornalismo Brasileiro na TV e na Internet (Editora Puc-Rio/Edições Loyola). De fato, ele é um autor entusiasta dessa ideia. Mas eu discordo dele em alguns pontos, e falo disso no meu artigo também. Acho que a sociedade não pode e não deve abrir mão do jornalista como intermediador de informações. Acho que é um fenômeno haver 112 milhões de blogs no mundo hoje. É importante, é relevante, mas não substitui completamente o papel da imprensa.

Qual é o seu argumento no artigo?

Carla: A minha defesa é de que, com a internet, o campo das fontes de informação se torna ainda mais complexo. Estamos diante de uma situação inédita que é a quantidade de oferta de informação que existe. Nesse campo, o papel de alguém como um jornalista, que consegue filtrar, investigar e buscar aquela informação que a fonte não necessariamente quer que seja veiculada, ainda é relevante. O que não quer dizer que isso esteja sendo bem feito. Estou falando em tese. Infelizmente, isso não é tão bem feito quanto deveria.

O que mais você destacaria sobre o conteúdo do livro Jornalismo Online: Modos de Fazer?

Carla: Chamaria atenção para o trabalho dos autores portugueses Antonio Fidalgo e João Canavilhas, que trazem para o livro uma discussão que ainda é inicial, mas muito importante, que é o jornalismo para dispositivos móveis, aparelhos celulares. Eles mostram que, até 2016, os celulares vão ser a maior plataforma de acesso à internet, e que isso, associado ao uso de redes sociais como Twitter e Facebook, ainda vai mudar muito a maneira de se fazer jornalismo online. Então, esse livro chega para tentar pensar questões que já estão postas hoje, 15 anos depois do surgimento do jornalismo online, mas também para pensar no futuro. O profissional vai trabalhar com outros critérios de síntese, de velocidade. O repórter deixa de trabalhar preso a uma redação, passa a trabalhar mais ainda desterritorializado. Vai ficar cada vez mais difícil.

O que deve mudar na formação desse jornalista da era da internet?

Carla: Defendo, no meu artigo, a ideia de que todo jornalista, em qualquer mídia que vá trabalhar, tem que saber lidar com a internet. Seja com a internet como fonte de pesquisa e informação, seja porque ninguém mais faz só jornal, só TV ou só rádio. A internet virou uma segunda atividade dos jornalistas de todas as outras mídias. Por isso, é preciso saber usá-la. Insisto com meus alunos que eles precisam aprender a pesquisar na internet, porque eles não sabem. Acho que o uso de ferramentas de publicação online e de edição de vídeo e de áudio digital será tão popularizado quanto hoje é o uso do Word para escrever uma matéria. Então, em algum momento, quem vai ser jornalista vai ter que saber usar esses softwares.

Você acredita que quem sai hoje da faculdade de jornalismo está preparado para essas mudanças?

Carla: Sim e não. Sim porque uma faculdade como a Puc-Rio, por exemplo, que mexeu no seu currículo para aprofundar a prática profissional ainda dentro da universidade, está trabalhando nessa direção. Mas, ao mesmo tempo, as mudanças são tão velozes que não é necessariamente possível acompanhá-las. Mas a formação não pode ser só técnica. Conhecer todas as mídias tem que se somar a uma formação em conteúdo, que também não pode ser mais como antigamente, quando o jornalista era um especialista em generalidades. Todos os campos de conhecimento estão se especializando, o jornalista também precisa se especializar. Ele precisa conhecer bem alguns assuntos para poder ser um bom jornalista, porque os assuntos ficaram mais complexos. Fazer jornalismo analítico, crítico, reflexivo, investigativo, exige dominar bem o campo do assunto que se está tratando. Isso é o que vai fazer o diferencial. Na medida em que todo mundo vai saber usar todos os softwares, o que vai fazer a diferença é aquilo que se conhece, o assunto que se domina.


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