Folhablu | Mozer: 'Para ganhar a Libertadores é preciso espírito coletivo'


Mozer: 'Para ganhar a Libertadores é preciso espírito coletivo'

Publicado em: 2010-02-02 02:10:34

Mesmo aos 49 anos, a elegância de Mozer impressiona. Tanto quanto sua maneira de falar - com um acento bem influenciado pelos tempos de Europa. O jogador, um dos melhores zagueiros que já vestiram a camisa do Flamengo, tinha uma categoria que chegava a irritar companheiros como Raul Plassmann. Ele confirma que no Mundial de 1981, já com o jogo resolvido, preferia exibir sua categoria a simplesmente espanar as típicas bolas lançadas em chuveirinho pelos britânicos.

Mozer jogou no Flamengo de julho de 1980 a julho de 1987. Foi para a Europa, onde construiu uma sólida carreira no Benfica e no Olympique de Marseille. Encerrou a carreira no Kashima Antlers e, em 2006, começou sua trajetória como treinador, trabalhando em Angola e no Raja Casablanca, do Marrocos.

O ex-jogador passou a tarde desta segunda-feira, dia 1º, na Gávea, onde concedeu essa entrevista ao site oficial do Flamengo e que a Folhablu reproduz abaixo. Do alto do seu invejável currículo, que ostenta títulos da Libertadores e do Mundial, dois Campeonatos Brasileiros (1982/83), e várias participações na Liga dos Campeões, o jogador dá alguns conselhos ao grupo que vai encarar o desafio de lutar pelo bi da Libertadores.

Como foi acompanhar o Fla-Flu no Maracanã?

Mozer: Foi uma emoção muito grande ver o Fla-Flu. O primeiro jogo que eu fiz pelo time principal foi contra o Fluminense, um 2 a 0 (Flamengo venceu com gols de Adílio e Tita, também pela Taça Guanabara, no dia 13 de julho de 1980). Já tinha muito tempo que eu não via um jogo no Maracanã. Férias de treinador são muito limitadas, porque a gente participa de tudo durante o período de transferências, não é como jogador. O campeonato para e a gente continua trabalhando e eu fiquei um pouco privado de vir ao Brasil, quando vinha era muito rápido.

E que análise você faz do jogo?

Mozer: Eu fiquei um pouco apreensivo. O Fluminense disparou com três gols. Tinha a esperança de que pudesse mudar. O Flamengo é um clube de brio próprio. E vimos uma segunda parte em nível altíssimo. Eles conseguiram fazer um jogo que entrou para a história. Uma virada que não é fácil de conseguir. Os jogadores tiveram um papel preponderante. E o Andrade foi muito feliz nas substituições. No início do segundo tempo, encheu-me de esperança de que a gente não pudesse perder o jogo e, com os gols, a euforia de que pudéssemos virar. É difícil tirar energias numa noite com a temperatura de ontem (de domingo) e imprimir um ritmo de jogo como aquele. Está todo mundo de parabéns pelo que realizaram no jogo de ontem. Eles tiveram tipicamente uma reação de quem joga no Flamengo. Todo mundo saiu contente do Maracanã.

A capacidade de Andrade mudar o jogo te surpreendeu?

Mozer: A mim não tá surpreendendo. Ele sabe tudo de bola.

Do alto de quem ostenta no currículo títulos da Libertadores e do Mundial, além de muita experiência internacional, se você pudesse deixar um conselho, qual seria para esse grupo que tem como um dos grandes objetivos na temporada o bicampeonato da Libertadores?

Mozer: O conselho que eu dou é que eles não percam aquilo que eles fizeram no Campeonato Brasileiro. O mais importante é a união e o espírito coletivo por cima dos interesses individuais. Apoio ao Andrade, que já viveu aquilo que eles vão viver agora. Que nenhum deles passe por cima do expoente máximo, que é o clube. Quando se pensa assim, se alcança o êxito. Os jogadores já fizeram isso no ano passado. Este ano, mais do que nunca, é preciso que eles permaneçam neste caminho porque todo mundo vai querer ganhar do Flamengo. Se eles tiverem união, vai ser difícil não conseguir os objetivos.

Qual a lembrança que você tem da Libertadores conquistada em 1981?

Mozer: Foi o sofrimento que nós víamos das agressões que nossos jogadores sofriam. E não foi só contra o Cobreloa, não. No jogo com o Olímpia também. Aquilo cada vez mais nos unia para poder vencê-los. Os nossos diretores também sofriam agressões no estádio. O Paulo Dantas, por exemplo. Bateram nele na torcida. O ambiente naquela época era de guerrilha. E nossa equipe só se preocupava em jogar futebol.

Você é ainda saudado pelos torcedores nas ruas, no exterior, por essas conquistas?

Mozer: Sempre. São conquistas que marcam o público. Os jogadores não conseguem alcançar a importância que tem essa euforia que contagia o público. Isso dura sempre. Aquilo, a minha geração vive há quase 30 anos. É importante criar o hábito e a cultura de vencer para dar retorno ao torcedor. O único jeito é com vitórias.

Quais foram os melhores atacantes que você enfrentou?

Mozer: Foram três. Reinaldo (Atlético Mineiro), Careca (Guarani, São Paulo, Napoli) e Marco Van Basten (Milan). A qualidade individual deles era muito grande. Era muito difícil saber o que eles estavam a pensar em fazer. Graças a Deus, eu nunca joguei contra o Zico.

E esse sotaque e expressões tipicamente portuguesas, como "equipa" e "historial"?

Mozer: O Júnior (ex-jogador multicampeão pelo Flamengo, hoje comentarista da TV Globo) me sacaneia muito. Eu até estou dando alguns dias para encontrá-lo, para ver se diminui um pouco o sotaque (risos).

Qual seu jogo inesquecível pelo Flamengo?

Mozer: Tem vários. Minha estreia contra o Fluminense (1980), a sequência contra o Cobreloa (1981), um jogo contra o Santos em que marquei dois gols (1984) e, claro, o Mundial.

Um dos muitos "causos" que o então goleiro Raul Plassmann, hoje comentarista, relata daquele jogo é de que você fez umas firulas já no final da partida contra o Liverpool. É verdade?

Mozer: É verdade essa história (risos). Eles olhavam para nós antes do jogo e riam pra caramba. Quando eles já estavam mortos, com 3 a 0 no placar, deu para (eu) fazer uma gracinha.

Quais são seus planos? Treinar um time no Brasil?

Mozer: O futebol brasileiro está atravessando um bom momento. Estruturalmente está diferente. O País está uma potência. É uma situação mais vantajosa. A atual conjuntura permite que se trabalhe melhor, que se viva com dignidade, sem ter que sair. Os jogadores agora saem muito jovens, mas a renovação é muito grande e sempre tem material humano de qualidade para trabalhar.

O fato de colegas seus como Andrade e Bebeto estarem hoje treinando clubes do Rio é um estímulo?

Mozer: É uma oportunidade que não acontece muito, principalmente em Portugal. O Brasil está dando chance à nova geração de treinadores. Vi o jogo do América e o time de Bebeto jogou muito bem.

Algum de seus filhos joga bola?

Mozer: Tenho quatro filhos. O Daniel, de 18 anos, é um central que tem bastante qualidade. Estou vendo se o convenço a voltar a jogar. Gostaria que ele retornasse para o Flamengo.


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