Folhablu | Lúcio Costa era contra a autonomia política do Distrito Federal e desvirtuamento do projeto


Lúcio Costa era contra a autonomia política do Distrito Federal e desvirtuamento do projeto

Publicado em: 2010-04-21 11:53:48

Brasília como ela é surgiu primeiro na cabeça do urbanista, arquiteto e professor Lúcio Costa. Foi ele que em 1957, com o “gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse” riscou dois traços e concebeu os eixos do projeto que apresentou à comissão julgadora que deveria escolher o Plano Piloto da nova capital do Brasil.

Brasília é portanto “filha” do gênio de Lúcio Costa que nasceu na França, morou na Inglaterra e na Suíça, e na juventude estudou arquitetura na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Lúcio Costa (morto em 1998) foi pai de Helena e Maria Elisa, esta também arquiteta e defensora ferrenha do projeto do pai.

Maria Elisa concedeu entrevista por escrito à Agência Brasil sobre os problemas urbanos da capital federal, que hoje faz 50 anos. Ela explica por que o pai era contra a autonomia política do Distrito Federal.

Após a inauguração de Brasília, temia-se a reversibilidade da transferência da capital federal. Foi a qualidade do projeto que garantiu a permanência?

Maria Elisa: Seguramente o projeto urbano de Lúcio Costa contribuiu para que a transferência da capital fosse definitiva: era exequível em três anos, era bela e capaz de se impor ao Brasil desde o primeiro momento como capital do país. Com a criação das superquadras, propôs um novo modo de morar que, sendo inovador, não assustava as pessoas. Mas a mudança da capital só foi possível porque houve uma incrível convergência de todos para dar conta do recado – do presidente ao mais modesto dos peões.

No texto Brasília Revisitada (de 1985), Lúcio Costa diz ser surpreendente “a semelhança entre o que existe e a concepção original” naquela cidade que então tinha 25 anos. Essa semelhança permanece aos 50 anos? Hoje o que parece mais ameaçador ao projeto do urbanista?

Maria Elisa: Permanece e permanecerá ao longo do tempo – desde que o Iphan - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - providencie logo a definição do limite do entorno da área tombada como sendo o divisor de águas da Bacia do Paranoá, evitando assim que o Plano Piloto acabe separado do seu horizonte por uma paliçada de torres de 30 andares.

Por que Lúcio Costa dizia que não interessava a Brasília ser grande metrópole? A situação que vivemos hoje com 2 milhões de habitantes e mais 1 milhão no entorno era o que ele temia?

Maria Elisa: A mim parece tão claro: qual seria o interesse, para a capital de um país, de ser grande metrópole? Ou seja, não há nenhuma vantagem em investir nessa direção. A expansão urbana do Distrito Federal não teve planejamento, aconteceu como em todas as cidades brasileiras. É bom não confundir as coisas: o Plano Piloto, protegido pelo tombamento, é a âncora que JK lançou para ancorar o Brasil no Planalto Central, e nele o mercado não manda, obedece (por isso tanta pressão contra o tombamento). O restante da área urbana crescerá ao sabor das circunstâncias e pressões, gerenciadas como as demais cidades brasileiras.

No memorial do Plano Piloto (1957), Lúcio Costa escreveu que o automóvel “deixou de ser inimigo inconciliável do homem” e só readquire “feição ameaçadora e hostil quando incorporado à massa anônima do tráfego”. Aos 50 anos, Brasília passou a ter problemas de tráfego. A solução urbana para isso tem sido, até agora, duplicar pistas. Que solução lhe parece ideal em conformidade à proposta original de urbanização da cidade?

Maria Elisa: O ideal mesmo seria propor fontes de trabalho e emprego fora do Plano Piloto, para desconcentrar a demanda. Se o tráfego ficar complicado demais, as pessoas acabarão se acostumando a usar o transporte coletivo; e se as pessoas de um modo geral, e não apenas o povão, começar a usar o transporte coletivo, ele acaba melhorando...

O que está fora do esquadro de Lúcio Costa e precisa ser resolvido? Há alternativas para problemas como as invasões nos fundos das comerciais locais do Plano Piloto?

Maria Elisa: Insisto numa proposta que fiz há mais de dez anos: considerar o limite da ocupação construída como sendo o limite da marquise do lado da quadra nos dois andares. Se for comércio abrindo também para a quadra, fachada livre; se for tipo fundo de quintal, combogó de quadradinho (como nos blocos antigos das superquadras da Asa Sul) em toda a altura. Além desse limite, só toldos ou ombrelones. Deve se dar um prazo para a adequação, depois multas crescentes, depois penhora, algo por aí.

Por ser o ponto de cruzamento dos eixos e ter um “caráter gregário”, a rodoviária é uma solução fundamental contida no Plano Piloto. Hoje, no entanto, depois de diversas administrações e reformas, a rodoviária, sempre suja e poluída, não parece ter nenhum atrativo ao passeio do visitante e há pouca possibilidade de convivência lá entre as classes que habitam a cidade. Como revitalizar aquele espaço?

Maria Elisa: É questão de manutenção, ou seja, de administração pública. Cidades precisam mais de prefeitos (ou seja, de boas “governantas”) do que de governadores.

No texto Registro de uma Vivência (1967), Lúcio Costa fala em “pseudo cidades satélites”. Mais adiante, em uma entrevista em 1984, ele diz que as satélites são “cidades normais do interior do Brasil, que têm de tudo e se vive de forma bem brasileira”. Como seriam as satélites na ideia original? O que temos hoje está muito longe disso?

Maria Elisa: Nunca houve "satélites na utopia original", apenas o edital do concurso previa o desenvolvimento urbano se processando através de cidades satélites (como estava na moda em toda parte, entre os urbanistas da época), sendo que essas cidades satélites, em tese, se desenvolveriam depois de completamente ocupado o Plano Piloto; mas a realidade social brasileira fez com que as satélites se desenvolvessem primeiro, e como sua implantação foi acontecendo sem nenhum planejamento regional, o resultado é exatamente o que Lúcio diz: “Cidades normais do interior do Brasil, que têm de tudo e se vive de forma bem brasileira”.

Na mesma entrevista, Lúcio Costa afirma que “a criação de uma câmara de vereadores aqui seria um desastre (…) Se o governador é eleito aí é aquela enxurrada de interesseiros que, depois de eleitos, começam a facilitar a vida dos amigos...” Como avalia os recentes escândalos no DF? Quanto isso contribuiu para desvirtuar as concepções originais sobre a cidade e, se foi o caso, afetar a qualidade de vida de quem mora aqui?

Maria Elisa: Assisti a essa entrevista, concedida ao Jornal do Brasil, no saguão do Hotel Nacional, num começo de noite em 1984, ou seja, no início da volta à democracia. Lembro que tomei um susto com a tranquilidade com que meu pai falou da eleição de governador, naquela altura dos acontecimentos... O que a gente esquece, é que durante todo o tempo em que o Rio foi capital, o DF não era um estado, como o nome indica, era um Distrito Federal, administrado por um prefeito nomeado pelo presidente da República para tomar conta da casa (e não para fazer política), e havia uma câmara de vereadores. Na entrevista, Lúcio chegou a sugerir que a população de Brasília se fizesse representar de outra forma, por exemplo através das associações de moradores. Como avalio os escândalos no DF? Lamentáveis, mas não exclusivos do DF. Além da inacreditável desfaçatez, no DF aparecem mais por conta do palco que Brasília é. Mas a cidade de Brasília propriamente dita, os moradores normais da cidade, não têm nada a ver com isso! Brasília é, apenas, a capital do Brasil (e não da Suécia, como também sempre dizia o doutor Lúcio...). O DF ter sido transformado em estado, sem ter como se sustentar criou uma situação ambígua, e de difícil solução. A título de exemplo: governador precisa de voto, então dá lotes (abre um rua com o trator e pronto), o que atrai gente; e quem paga o custo da infraestrutura? É mamãe federal... Por outro lado, se hoje é permitido votar para governador, será que as pessoas aceitariam, perder esse direito? Talvez a solução seja um prefeito eleito, as associações de moradores representando a população, e uma reformulação da legislação relativa à administração do DF.

A senhora viveu na cidade nos anos 80. Como foi viver em uma cidade criada pelo próprio pai?

Maria Elisa: Nunca tive casa minha em Brasília (minha única morada na vida sempre foi o Rio de Janeiro); nas temporadas que passei na cidade (desde 1961 até hoje) morei em casa de duas cunhadas, ambas em superquadras. Nos anos 60 e início dos 70, quando eu ia a Brasília, tinha a inevitável sensação de estar andando em cima de um projeto. Depois, à medida em que a cidade foi tomando corpo e consolidando sua identidade prórpria, essa impressão foi se dissipando, até acabar por completo. Brasília para mim hoje, é tão “projeto” quanto Paris.

Por Gilberto Costa

Da Agência Brasil


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