Folhablu | Hispanista Ricardo Navas Ruiz fala com exclusividade a professora da Unesp


Hispanista Ricardo Navas Ruiz fala com exclusividade a professora da Unesp

Publicado em: 2013-12-11 04:43:50

Professora da Unesp de Assis (SP), Maira Angélica Pandolfi realizou em novembro estágio de pesquisa em Salamanca, na Espanha, onde teve a oportunidade de entrevistar o professor Ricardo Navas Ruiz, hispanista de renome, que lecionou nos EUA e atualmente, aposentado, vive naquela cidade espanhola. O professor Navas Ruiz começou a sua carreira nos primórdios da Unesp de Assis, nos anos 60, juntamente com Antônio Cândido.

 

Ricardo Navas Ruiz acaba de lançar, pela editorial Redipe (Red Iberoamericana de Pedagogía), uma obra que reúne os artigos que ele publicou no jornal O Estado de S. Paulo, entre 1961 e 1965. O livro foi publicado na Colômbia por Julio César Arboleda, diretor da Redipe.

 

Para Navas Ruiz, duas pessoas comprometidas com o nascimento da Unesp no interior de São Paulo foram essenciais para ele no Brasil: o catedrático em literatura espanhola da Usp naquela época, professor Julio García Morejón, e Antonio Candido de Melo e Souza, que abriu as portas do periódico O Estado de S. Paulo. Assim surgiram os artigos agora compilados, escritos no período em que atuou ao lado do Antonio Candido na Unesp em Assis e depois na Usp.

 

Conte-nos um pouco sobre a experiência de ter sido um dos primeiros professores de espanhol da Unesp de Assis quando esta ainda era um instituto isolado na promissora cidade do interior de São Paulo na década de 60.

 

Ricardo Navas Ruiz: Aquela pequena instituição de ensino superior de Assis produziu nesse jovem e vaidoso professor, recém-formado pela Universidade de Salamanca, uma transformação fundamental em sua carreira. Ensinou-me a conviver democraticamente com colegas, professores e alunos. Ampliou minha visão sobre o hispanismo, fazendo-me enxergar a importância da América Hispânica diante da estreita visão monolítica e estratégica daquela Espanha onde havia sido educado. Ajudou-me a descobrir a beleza e a importância de países como o Brasil. Fomentou-me o gosto pelo ensino e pela pesquisa a partir do exemplo de outros colegas com mais experiência que me facilitaram o acesso a alguns materiais importantes. Universalizou minha aproximação cultural a partir do contato com outras línguas e suas respectivas literaturas.

 

Quais eram as perspectivas a respeito da difusão do ensino de espanhol no Brasil naquele momento e qual a sua opinião sobre o momento atual?

 

Navas Ruiz: O ensino do espanhol nesse momento era bem mais limitado e restrito basicamente a determinadas universidades e núcleos de interesse. Contudo, é também nesse momento que ele avança em disparada. Esse fenômeno se deve, sem dúvida, ao nascimento de uma consciência latino-americanista em países como o Brasil, Argentina, Peru e México, que são aproximados por meio de uma série de acordos de cooperação. Com relação a São Paulo, vale lembrar fatos como a chegada massiva de livros do regime castrista, a conferência proferida por Raúl Haya de la Torre na Usp, a criação de uma seção de letras hispano-americanas no suplemento literário de O Estado de São Paulo e a implantação de uma cadeira de literatura hispano-americana na Usp. Em todas essas ações merece ser relembrada a figura entusiasmada do professor Julio García Morejón. Até resultaria uma boa tese o levantamento histórico documentado de toda essa época. É óbvio que o momento atual é incomparavelmente mais exitoso, tornando-se quase inútil recordá-lo aqui. A implantação da obrigatoriedade do ensino de espanhol na rede pública de ensino foi um fator decisivo. Gostaria de dizer, portanto, que se as coisas chegaram a esse ponto aquelas origens não podem ser ignoradas pelos hispanistas brasileiros de hoje. A memória histórica, além de uma questão de justiça, é uma garantia da continuidade das instituições.

 

O senhor trabalhou na Unesp em Assis, e também na Usp, em São Paulo, com o mestre Antônio Candido. Como foi essa convivência e qual a sua visão sobre ele?

 

Navas Ruiz: Tive a grande sorte de encontrar, tanto em Assis como em São Paulo, um grupo de professores de refinada estirpe intelectual, dedicados com rigor e entusiasmo ao ensino e à pesquisa. Seus nomes fazem parte da história da Unesp e da Usp. Entre eles encontra-se Antonio Candido. Impossível dizer alguma coisa sobre o peso de sua intelectualidade, admirada muito além das fronteiras brasileiras. Recordarei apenas o amigo cativante, cordial e modesto, com quem tive a oportunidade de dividir mesa em um solitário restaurante de Assis. Recordarei sempre o colega generoso que me orientou com sábios conselhos e que me abriu as portas do jornal O Estado de São Paulo para a publicação de minhas contribuições acerca da literatura hispano-americana. Lembrarei, portanto, da pessoa afável, inteligente, jamais vaidoso ou displicente, igualmente aberta a humildes e poderosos, culta e refinada.

 

O senhor trabalhou em diversas universidades renomadas, tanto na América como na Europa. Como se deu esse percurso e o que essa experiência acrescentou em sua carreira?

 

Navas Ruiz: Não é fácil explicar, muitas vezes, a razão da trajetória vital ou profissional de uma pessoa. Geralmente resulta de uma coincidência e de uma necessidade. Em meu caso o fato é que lecionei em muitas universidades. Cada uma delas deixou em mim uma marca e de cada uma levei muitas lições. Recordar todas seria uma tarefa imensa. Poderia, isso sim, resumir um conjunto de constatações que no decorrer do tempo e do trajeto deixaram em mim um caudal de experiências. A primeira delas, portanto, seria a importância de uma vocação sincera pela profissão. Os melhores professores que encontrei dedicaram-se de coração à sua tarefa. Em segundo lugar, gostaria de destacar que as melhores universidades são aquelas que conferem igual importância à docência e à pesquisa. Ambas encontram-se estritamente unidas frente ao que alguns costumam defender hoje. A terceira coisa seria o imenso dano que o aumento cada vez maior da burocracia vem causando à instituição universitária, assim como o controle abusivo sobre os professores, limitando-lhes a iniciativa e a liberdade sem garantia absoluta de maior qualidade.

 

O senhor escreveu vários estudos sobre a literatura espanhola e sobre a literatura e a cultura hispano-americana que são obras de referência aos pesquisadores e professores que se dedicam a esses temas. Como foi essa trajetória e quais são as suas pesquisas atuais?

 

Navas Ruiz: Meu currículo reflete um amplo interesse pela cultura do mundo hispânico, especialmente a língua e a literatura. Sempre acreditei que esses dois campos de estudo são inseparáveis. Por outro lado, nunca me acomodei estudando apenas uma determinada especialidade, ou seja, um período, um tema, um autor ou um aspecto. Admiro o espírito universalista dos humanistas ou o rigor dos autênticos filólogos que ao estudar um texto se utilizam, igualmente, da língua, da literatura, da história, da paleografia, da etnografia e das ciências sociais. Já nossa Sor Juana Inés de la Cruz apontava uma estreita vinculação entre os conhecimentos humanos. Sobre minha obra, aí está. É possível destacar algumas coisas. Meu estudo sobre ser e estar abriu um caminho novo acerca da temática que acabamos de abordar. Sobre o romantismo, a obra El Romanticismo Español ainda é uma referência, com especial destaque ao meu estudo sobre José Zorilla, onde proponho uma aproximação diferente ao grande poeta tão mal lido. Não quero ser pedante, apenas assinalar minhas contribuições ao donjuanismo, a Martín Fierro, ao romance latino-americano, à poesia espanhola do século 19, dentre outros.

 


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