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Nem tudo que reluz é Cullen

Publicado em: 2010-10-24 10:19:17

Todos sabemos os ingredientes básicos de um best-seller juvenil. Mocinhos deprimidos, amores impossíveis, nada de "sexo, drogas e rock’n’roll", uma pitada de imaginação pró-síndrome de Peter Pan e muita, muita lábia. Pegue os elementos, misture e - vouillá - você terá a saga Twilight, o best-seller mais aclamado entre as jovens – ou não tão jovens assim – adolescentes que sofrem surtos de histeria a cada lançamento e defendem, esquivas e cegamente devotas, sua pré-religião: o cullenismo.

Antes de tudo, existem três coisas que você deve saber sobre Crepúsculo: 1) Ame ou odeie, eles são populares. Muito populares. Querendo ou não, mais pessoas leram Crepúsculo que qualquer outro livro clássico sobre o assunto. 2) Os livros não são tão bons. A má recepção da crítica sobre Crepúsculo não se deve apenas aos defensores da cultura clássica, que tem como líderes grandes escritores e gênios como Bram Stoker e Anne Rice, mas sim, pela obra chula e sem conteúdo a qual se caracteriza o livro. Twilight é um romance água com açúcar, descompensado e clichê, uma história típica e sem surpresas que mexe com os hormônios da maioria avassaladora de adolescentes atuais. 3) VSNN - Vampiros? Só no nome. Os vampiros de Stephenie Meyer não têm caninos alongados, não queimam, mas brilham, ao sol, usam alho como tempero em suas saladas vegetarianas, tomam suco de groselha e penteiam seus hidratados e estilosos cabelos no espelho, onde refletem.

Várias críticas merecem ter seu lugar gravado aqui, comecemos então, pelo início de tudo: a autora. Stephenie Meyer, a sortuda escritora estadunidense que acertou na dose e se tornou uma das mais ricas mulheres após sua obra – não tão prima - vender mais de 100 milhões de cópias ao redor do mundo, com traduções em 37 línguas diferentes, para 50 países, uma verdadeira febre mundo afora. Em seu site, Stephenie fez a seguinte declaração: “Eu acordei naquele 2 de junho de um sonho muito nítido. Em meu sonho, duas pessoas tinham uma conversa intensa numa campina no bosque. Uma das pessoas era uma menina comum. A outra era incrivelmente bonita, faiscava e era um vampiro. Eles discutiam as dificuldades inerentes aos fatos de que: a) eles estavam apaixonados um pelo outro; e b) o vampiro sentia-se particularmente atraído pelo cheiro do sangue da menina e tinha dificuldades para se conter e não matá-la imediatamente.” Teria ela tido, em 2003, um sonho mais real do que parece? Em 1991, a também estadunidense Lisa Jane Smith lançava seu primeiro livro sobre vampiros: Diários do Vampiro. Sua trama, que, adivinhe, trazia uma garota sonsa-indefesa e um vampiro muso-bonzinho, se desenrolava em volta da paixão da garota inocente pelo vampiro do bem, que tinha o dilacerante medo de machucá-la. O mundo, que pouco foi abalado com os livros não famosos e pouco divulgados mundialmente de 1991, se baseou, em 2003, na ideia de que “toda semelhança é mera coincidência”. Mas resta a pergunta: o que Stephenie Meyer, a escritora de vampiros que orgulhosamente admite sentir nojo dos ditos cujos, lia antes de dormir no dia 2 de junho de 2003?

Mas este, porém, não é o fato realmente importante a ser alardeado sobre Twilight, mas sim, a nova doença mental que o livro trouxe aos mais fracos de ideia: a crepusculite, ou Eduardos brilhantinus. Alguém me avise se eu tiver deixado escapar alguma coisa, mas, num livro sobre vampiros, onde estão os sugadores de sangue? E este, este sim foi o maior erro da senhorita "Stephenie Cullen". Com a tão reconhecida e crescente falta de cultura dos jovens da juventude clichê que esbanja ignorância, ela apagou, de quem bateu na porta do mundo literário ao começar a ler sua história, toda e qualquer cultura real sobre o assunto que seu livro aborda. Levante a mão e atire a primeira pedra quem, após ler Crepúsculo e sua gangue de vampiros fajutos, reconhecer por suas características Lilith, a primeira lenda vampírica conhecida, criada para ser esposa de Adão, segundo as culturas sumérias e mesopotâmicas. Mas não precisamos ir tão longe. Atire então, quem reconhecer Lestat de Lioncourt, o vampiro criado por Anne Rice na sua obra verdadeiramente prima chamada Entrevista com o Vampiro, ou o genial conde Drácula, do mais genial ainda Bram Stoker, de 1897. Os existentes ou ficcionais vampiros reviram-se agora em seus, sim, portador do vírus da crepuscilite, caixões, após terem que abrir espaço de suas gloriosas lendas para pseudo-vampiros, dramáticos, que brilham ao sol como num desfile de carnaval, saem em fotos, têm sombra, reflexo, levam crucifixos pendurados no peito, passam por água corrente e estacas de madeira ferem seus sentimentos, mas não os matam. Sim, Edward Cullen, Lestat te despreza, e boa parte da humanidade que cultua a memória de uma lenda e de uma cultura, também.

Por fim, advogo então que a série nada mais é do que uma fanfiction de internet mal escrita. Em termos literários e culturais é sofrível, a história é clichê, repetitiva, com rasgos imaginários batidos a martelo e ideias deformadas que existem com o propósito de facilitar. Claro que os vampiros brilham; não andar no sol não tem nada de romântico, e se os vampiros não brilharem, não conseguiriam encher 30 linhas com adjetivos para descrevê-lo.

Fique atento ao Eduardos brilhantinus, os sintomas são: cegueira, mau-humor, falta de consciência, perda de massa cinzenta e alucinações... Mas existe cura, desde que você já não tenha chegado ao estágio da surdez. Mas, veja pelo lado positivo, pelo menos ela não te levará à perda de sangue.

Ao som de: Geração Coca-Cola - Legião Urbana

Por Anna C.

Estudante, 16 anos


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