Folhablu | A indústria do medo e o tráfico de luxo


A indústria do medo e o tráfico de luxo

Publicado em: 2011-11-02 10:02:52

O que acontece quando uma das necessidades básicas do ser humano esconde uma intrincada rede de interesses, sustentada por uma das maiores e mais monstruosas indústrias da atualidade, que visa o lucro negligentemente, e se inseriu a tal ponto de virar um dos setores mais produtivos e lucrativos da estrutura capitalista? Uma indústria que vende a ideia do medo e oferece à população aquilo que ela pensa necessitar, em uma lógica inerente ao sistema. Certa vez, se foi dito que “a diferença entre homens e animais, é de que o homem é um animal viciado em pílulas”. Não é coincidência que a toda poderosa indústria farmacêutica adquiriu ao longo do desenvolvimento humano uma força incalculável na sociedade mundial. Anos atrás, o diretor de uma das maiores empresas farmacêuticas do mundo fez declarações claras: disse que sonhava produzir medicamentos destinados às pessoas saudáveis, assim podendo contaminar ao mundo todo. Três décadas depois, o sonho tornou-se realidade. Caminhamos então para a produção de uma sociedade hipermedicada. E o que acontece quando se descobre que o interesse da indústria farmacêutica pela saúde é um mito?

Sabe-se que a indústria farmacêutica aparece na quarta colocação em volume de produção, perdendo dos Estados Unidos, França e Itália. O coordenador do Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuários de Medicamentos, afirmou que hoje no Brasil não existe nenhum medicamento que tenha margem de lucro inferior a 600%. Segundo o presidente da Federação da Indústria Farmacêutica, o faturamento dessa indústria no Brasil atualmente é de R$ 25 bilhões. Os dados revelam uma realidade bruta: as drogas farmacêuticas são desenvolvidas visando o mercado potencial, e não as necessidades da sociedade. A preocupação com a saúde da população fica em segundo plano, e a preservação dos lucros assume o papel que conscientemente deveria pertencer ao bem-estar da população.

A indústria farmacêutica, diferentemente do que se pensa, não tem sua produção baseada em pesquisas e desenvolvimento de melhorias e novos meios, mas sim, de uma fácil campanha de marketing que abate grande parte da população: a dispersão do medo. Casos de doenças são tratados como epidemias, os problemas rotineiros da vida tornaram-se problemas mentais. Queixas são transformadas em síndromes. Pessoas saudáveis, aos poucos, são moldadas como doentes. A campanha farmacêutica explora os maiores medos do ser humano: a doença, a decadência e a morte.

O ato da medicação virou um vício humano. Tomar um medicamento tomou tanta influência, que mesmo uma pílula de açúcar sem poder ativo nenhum pode produzir efeitos benéficos a quem a toma, o famoso “efeito placebo”. Após a criação farmacêutica chamada de “drogas de estilo de vida”, houve uma mania exagerada pelo consumo de remédios como os de emagrecimento, antidepressivos, hipnóticos e tantos outros, que causam a dependência, como qualquer outra droga barata. Mas poucos sabem disso, uma vez que a indústria tem controle total sobre as pesquisas, que abate os resultados negativos. Isso não é ciência, é propaganda.

O foco da indústria pela produção de remédios viciantes que englobem a maior parte da sociedade, e que torne o lucro exorbitante, causa um outro grave problema: doenças raras e de pouca rentabilidade são negligenciadas, não havendo interesse comercial em desenvolver suas curas. Essas doenças negligenciadas correspondem a 12% do impacto de doenças no planeta. Já as doenças cardiovasculares, que abrangem grande parte da população e para as quais 179 novas drogas foram criadas, há um impacto de apenas 11%. O problema, é que não é rentável sustentar pesquisas para remédios que combatam doenças que atinjam pequenas parcelas da população. É necessária a larga escala.

Há três anos, um pesquisador canadense descobriu que uma substância química comum e não tóxica, conhecida como DCA, inibia o crescimento de tumores cancerígenos em ratos. Ele testou as células cancerígenas em laboratório e conduziu os testes em humanos. Os resultados foram positivos, o tratamento com DCA pareceu estender a vida de quatro dos cinco participantes do estudo. O cientista não patenteou a descoberta. Mas não porque não quis. Então por que não ouvimos falar dela? Em um mundo onde uma droga patenteada para câncer chamada Avastin custa aos pacientes cerca de US$ 80 mil por ano, não há interesse em cura. Qual seria a vantagem? Onde estaria o lucro?

Enquanto os governos gastam milhões em programas contra as drogas ilícitas, a indústria farmacêutica está investindo bilhões em pesquisas de novos medicamentos que tanto curam quanto matam. Vinte mil brasileiros morrem a cada ano em decorrência do consumo de entorpecentes ou de crimes relacionados ao tráfico. Mas 24 mil morrem a cada ano em decorrência de intoxicação medicamentosa. Em 1999, ocorreu o massacre de Columbine, no Colorado, Estados Unidos. Enquanto o mundo discutia o porte de armas e o efeito das drogas na juventude, pouca repercussão ganhou o fato de que Eric Harris, um dos responsáveis pelo massacre, estava sob o efeito do antidepressivo Luvox quando matou doze colegas e seu professor, antes de cometer suicídio. Dezessete mil estadounidenses morrem por ano pelo consumo de drogas ilícitas. Enquanto isso 250 mil morrem devido aos efeitos colaterais de drogas farmacêuticas.

Isso não torna a indústria farmacêutica, financiada por governos e entidades, uma forma de tráfico de luxo? O fato de ela ser lícita não a torna correta. Nem justa. Não é coerente que pessoas morram pela falta de auxílio por não serem consideradas suficientemente lucrativas. Nem que pessoas sejam sentenciadas a uma vida de angústias a fim de alimentar uma máquina que visa injustamente apenas o seu crescimento. É necessário que medidas sejam tomadas para que haja o controle dessa indústria, que distorce pesquisas e mantém um monopólio de produção e comercialização, podendo assim manipular preços exorbitantes. É necessário que a população mundial tome medidas duras contra o comportamento negligente desse sistema, e que com o aumento dessa consciência, passe a ser possível combater o talvez único vírus atual que não necessita de nenhuma pílula: o vírus da ganância.

Por Anna C.

Estudante, 17 anos


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