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Quem tem ideal não envelhece

Publicado em: 2017-06-29 15:06:33

Achei, nos meus alfarrábios, texto que publiquei, em 3 de maio de 1987, na Folha de S. Paulo, dedicado à melhor idade:

 

Na religião de Deus, do Cristo e do Espírito Santo procuramos sempre aliar a energia dadivosa dos mais novos ao patrimônio da experiência dos mais idosos. E isto se consegue pela influência do amor fraterno, que não é velho nem novo; é eterno porque é Deus. O Pai Celestial é amor, consoante definiu João, em sua Primeira Epístola, 4:8. E completava Zarur: “E nada existe fora desse amor”. Por isso, quem tem ideal não envelhece. O corpo pode baquear. Mas o espírito está sempre alerta. Jovem é aquele que não perdeu o ideal no bem.

 

Que é novo, que é o antigo, afinal? Nada! Immanuel Kant (1724-1804), o grande filósofo alemão, autor de Crítica da Razão Pura, afirmava, mutatis mutandis, que o tempo é a grande mentira dos homens. Portanto, acima de tempo-espaço e seus limites. Real é a vida, que é eterna.

 

Sidónio Muralha, poeta português que se radicou no Brasil, onde viveu até o seu falecimento em 1982, louvou essa eternidade do valor intemporal no seu belíssimo Cântico à Velhice: “(...) É este o cântico / Dedicado ao que chamam / de velhice / que é a infância / lançada mais longe, / onde o horizonte / se rasga e alarga (...)”.

 

A composição poética, a recebemos de dona Helen Anne Butler Muralha, esposa do saudoso poeta, que gentilmente também nos cedeu a foto do casal. Vamos, então, ao esforço bem-sucedido de Muralha, por desmistificar o tempo, esse fantasma que atormenta o homem-ser-restrito, até que um dia ele perceba que, na verdade, é espírito eterno, pairando acima de todos os grilhões da carne perecível.

 

Cântico à Velhice

 

Minha velha portuguesa / com o teu rosto marcado, / mas sem medo da vida / (e ainda menos da morte), / atira o teu cajado contra o tempo / que passa e não tem presente, / porque na segunda sílaba do  presente / já passou a ser passado.

 

Atira teu cajado, companheira, / contra esse tempo efémero / que não consegue apagar-nos.

 

Nós corremos no sangue / das novas gerações / e os velhos são as crianças / do futuro, / as primaveras que vieram dos invernos, / as flores que rebentam, / que explodem da terra, / como tu, / minha querida portuguesa, / que em cada ruga que tens / existe um poema escrito / tão grande e tão profundo / que é um cântico à velhice.

 

Sim, um cântico sem fronteiras, / porque os velhos / têm asas imensas / que voam no sentido contrário, / desafiando o espaço / como quem roça o mar, / mergulha para sempre / mas deixa, perto do sol, / uma mensagem salgada.

 

Velha portuguesa / feita de oceano / como todos nós, / que somos navios, / barcos, canoas, / remos e lemos, / quilhas, / algas e maresia,  / mastros de audácia / que derrotam tempestades, / caravelas, descobertas, / velha portuguesa / descobre que o tempo / tem medo do teu cajado / e desanca as horas, / e desaba as horas, / e desaba os relógios / que são acidentes / indecentemente formais.

 

É este o cântico / dedicado ao que chamam / de velhice / que é a infância / lançada mais longe, / onde o horizonte / se rasga e alarga.

 

Não esqueças, portuguesa amiga, / de vergastares o tempo / com o teu cajado.

 

Por José de Paiva Netto

Jornalista, radialista e escritor

paivanetto@lbv.org.br

 


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