Folhablu | Victor Pacheco ou Elza Hering? O Frankenstein que o estado está criando na educação


Victor Pacheco ou Elza Hering? O Frankenstein que o estado está criando na educação

Publicado em: 2018-01-31 21:03:53

 

Nem Mary Shelley seria capaz de tanto. A escritora britânica, autora de Frankenstein, perderia feio para a Secretaria de Educação de Santa Catarina no quesito "criação de um monstro". O Frankenstein do governo do estado começou a ser costurado no dia 1º de janeiro, com a unificação das direções das escolas Victor Hering e Elza Pacheco.

 

Criada em 1984, durante o governo de Esperidião Amin, a EEM Elza Pacheco jamais teve uma sede própria, devendo sua existência a acordos com outros educandários para a utilização de seus espaços. Assim, a escola passou pela municipal Machado de Assis, o estadual Cedup, até chegar à Victor Hering em 2012.

 

Com a chegada do visitante, a escola Victor Hering perdeu sua biblioteca - transformada na secretaria da inquilina -, seu laboratório - transformado em sala de aula - e perdeu seis das catorze salas de aula existentes. Mais que isso: perdeu a autoestima. Por falta de espaço físico, a comunidade viu o acordo que a Victor Hering tinha com o município ser desfeito e com isso ficou sem a turma do chamado pré 3, para crianças de até 6 anos, mas que pela data de nascimento são impossibilitadas de serem matriculadas na primeira série do ensino fundamental. Todas as perdas contabilizadas pelo colégio cinquentenário do bairro Vila Nova, em Blumenau, refletiram sobre um personagem por quem cabe justamente ao estado zelar pelo bem-estar: a população, o contribuinte.

 

A luta pela sobrevivência transforma as pessoas em leões. Ou em raposas traiçoeiras. E a convivência entre Victor Hering e Elza Pacheco, que jamais foi boa, pouco a pouco foi se transformando em rivalidade no embate por mais espaço.

 

Entre idas e vindas, ambas - cada uma a seu tempo - estiveram à beira da extinção. Em outubro de 2015, o secretário estadual de Educação, Eduardo Deschamps, chegou a anunciar a incorporação da Elza Pacheco por parte da Victor Hering, com o então diretor da VH, Ramirez de Souza, na gestão geral. Ramirez nem mesmo chegou a assumir. Dias depois, Deschamps voltou atrás, promovendo uma reviravolta cerca de um mês depois. Na abertura das matrículas, entre novembro e dezembro de 2015, a Secretaria de Educação proibiu a abertura de turmas de primeira série na Victor Hering. Estava aberto ali o processo de extinção gradativa da escola.

 

Em fevereiro de 2016, um grupo de pais e membros da comunidade criou a comissão Somos Todos Victor Hering para evitar a extinção da escola. Em maio, Eduardo Deschamps anunciou a suspensão do processo. Ao longo de todo o ano, a comissão pressionou o estado contra o descalabro, até que em dezembro a Secretaria da Educação anunciou o retorno das turmas de primeira série. Um passo atrás que valeram por dois à frente logo a seguir.

 

Ao longo de 2017 o governo do estado buscou tranquilizar a comunidade escolar, bem como a comissão Somos Todos Victor Hering, sobre as possibilidades de extinção da escola. Por outro lado, se omitiu ao não frear a crescente rivalidade entre os dois colégios. Um núcleo de apoio à direção da Elza Pacheco parece ter se instalado dentro da Victor Hering, com um pequeno grupo de funcionários da própria escola boicotando e descontruindo sua imagem. Uma enxurrada de ouvidorias - na maioria anônimas - praticamente inviabilizou a já cambaleante gestão de Ramirez de Souza. O Victor Hering se tornou um barril de pólvora.

 

Enquanto demonstrava apatia ou impotência diante da situação vivida por trás dos muros da EEB Victor Hering, o governo do estado demonstrava agilidade fenomenal para reforçar seu "exército". Emerson Antunes, sobrinho do deputado Ismael dos Santos, assumiu o comando da Agência de Desenvolvimento Regional de Blumenau no lugar de Cássio Quadros. Eliomar Russi, ex-colunista da Folhablu e sobrinho do ex-vereador Ivo Hadlich, foi alçado ao cargo de gerente regional de Educação, ocupado por filiados ao PMDB ao longo da administração. O tripé que daria sustentação ao monstro estava montado: Deschamps, Antunes e Russi. Agora só faltava ao estado costurar seu próprio Frankenstein.

 

Em uma reunião com lideranças da comunidade da Vila Nova, Eliomar Russi lançou informalmente a ideia de unir as gestões de Victor Hering e Elza Pacheco. Era consenso entre as lideranças comunitárias que o estado deveria assumir sua responsabilidade no conflito e resolver a questão da única forma plausível, ou seja, construindo uma estrutura independente para a Elza Pacheco, mesmo que no próprio terreno onde está instalada a escola Victor Hering. A solução apresentada por Eliomar - mais barata para o estado e cara para a educação - foi rejeitada pela comunidade. Já a solução apresentada pelas lideranças - mais cara para o estado e barata para a educação - jamais foi assumida pelo estado.

 

Em novembro, o "monstrinho" do estado começou a ganhar contornos. De uma simples sugestão, a unificação das direções das duas escolas foi anunciada definitivamente. Tânia Elaine Wuaden, então diretora da Elza Pacheco, foi anunciada como gestora. Diante da forte reprovação popular, em dezembro o estado reviu a decisão e anunciou Josué de Souza, professor da Elza Pacheco, como novo diretor. Tânia Wuaden e Ramirez de Souza, então diretores, tornaram-se assessores.

 

O secretário regional da ADR Blumenau, Emerson Antunes, argumenta que a solução foi a única encontrada para pacificar as relações entre Victor Hering e Elza Pacheco. Para tanto, promete reforçar o quadro de professores efetivos e melhorar a estrutura física das escolas. E anunciou: vai transformar a gestão das unidades escolares em um "case de sucesso". É possível, mas não provável.

 

O processo de descaracterização pelo qual passa hoje a escola Victor Hering é flagrante. Recentemente, o governo do estado anunciou a liberação de verba para reforma da parte elétrica da estrutura das escolas (das duas), mas a informação foi levada à imprensa como tendo sido destinada à Elza Pacheco. A promessa de manter a identidade das duas escolas está sendo esquecida. Oficialmente, é à Elza Pacheco que o governo do estado faz referência. Até mesmo Ramirez de Souza, segundo informações, se tornou assessor da Elza pacheco e não da VH. A Victor Hering está se tornando um fantasma.

 

Talvez seja melhor assim. Tudo o que a população espera do estado é que ele assuma suas responsabilidades. A EEM Elza Pacheco é criação sua. Não desta administração que está aí. Mas esta administração responde hoje pelo estado. Elza Pacheco e Victor Hering têm suas histórias. Ambas merecem ter suas identidades preservadas. Ambas merecem e precisam ter suas próprias estruturas físicas para oferecer à população o que se espera delas. Reconhecer isso é tarefa do estado. Prover isso é dever de um servidor público, seja ele ocupante de cargo político ou técnico. Caso contrário, mais vale tornar-se um fantasma, ou só um quadro na parede, do que um monstro costurado às pressas que faria Mary Shelley corar de vergonha.

 

Por Fábio Souza

 

 


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