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Sua mãe e a religião

Publicado em: 2018-07-12 15:30:59

 

 

 

 

 

 

Considerada a média de nossa espécie, existe apenas um indivíduo fisicamente saudável mais vulnerável que um exemplar do sexo feminino: este indivíduo é um bebê. Por isso, quando éramos bebês, o mundo inteiro representava um risco para nossa existência: escadas, tomadas elétricas, ventos frios, panelas de água quente, ruas movimentadas, andar de pés descalços, ofertas de pessoas estranhas, objetos estranhos levados à boca... bastaria uma queda de mau jeito ou um resfriado e estaríamos fritos!

 

Felizmente, para nos salvar de todas essas “potenciais catástrofes”, a maioria de nós contou com a presença sempre atenta de um anjo da guarda chamado de mãe. Era dela a tarefa hercúlea de proteger a frágil cria do planeta que queria devorá-lo - ou pelo menos era assim que a mãe enxergava o ambiente ao seu redor. Toda mãe é assustada, apavorada e protetora. O medo está na raiz da sobrevivência humana e, quanto mais frágil o espécime, maior o medo. De um modo geral, mães com bebês novos são a dupla no topo dessa pirâmide de “terrores por acontecer”.

 

E de que maneira uma mãe protege seu bebê? Simples: dizendo “não!”. E são muitos “nãos!”. Estima-se que um bebê ouça sua mãe dizer “não!” oito vezes mais que a ouve dizer “sim!”: dados dos EUA calculam que um bebê terá ouvido sua mãe dizer “não!” cerca de 40 mil vezes antes de completar 5 anos de idade, mas a maratona está longe de terminar no final dessa fase.

 

Qualquer que seja a estatística real, o fato é que ao longo de toda a infância vamos ouvindo: não encoste aí, não ponha isso na boca, não toque, não corra, não suba na estante, não vá na parte funda da piscina, não mexa nisso, não chore, não ande descalço, não fique acordado até tarde, não atravesse a rua sem olhar para os lados, não converse com estranhos, não me desobedeça, não me responda, não me ignore, não solte minha mão, não suma, não faça pirraça, não seja mal educado, não entre aqui com os pés sujos desse jeito, não largue as coisas pela casa, não deixe seu quarto tão desarrumado, não saia sem colocar o casaco, não quero mais ver você andando com tal pessoa, não vê que eu só quero o seu bem?

 

A quantidade de negativas de uma mãe tende ao infinito, mas elas não estão de todo equivocadas: asfixias, acidentes de trânsito, aspiração de corpo estranho, afogamentos, queimaduras e homicídios figuram entre as principais causas de morte entre crianças. Dizer “não!” pode salvar uma vida. E as mães sabem disso. Então elas dizem "não!". Bastante.

 

Crescemos e ficamos com esta tradição em nossas mentes: mães dizem “não!”. E mães nos amam, incondicionalmente - ou pelo menos este era o plano que a natureza tinha para a maternidade. Em geral, o plano funciona, e o amor de uma mãe é tão incontestável quando inabalável. Passamos a associar quem diz “não!” a alguém que nos ama profundamente, que nos quer bem da maneira mais irrestrita possível, e nossa mente grava a ferro e fogo esta convicção: dizer “não!” é uma manifestação de cuidado e afeto. Apesar de a adolescência representar um período de crise temporária nesta crença, a tatuagem mental do “só alguém que lhe ama muito lhe diz não” sobrevive bem a esta fase. Nos tornamos jovens adultos e adultos maduros, e a tatuagem nos acompanha.

 

Por isso, as religiões amam tolher, coibir, obstar, opor-se. Elas buscam este imprint estigmatizado em nosso inconsciente desde a tenra infância: quanto mais impedimentos forem exigidos, tão mais aquela doutrina puxará de sua memória a impressão de alguém que lhe ama acima de todas as coisas. Um dogma religioso proibitório é nada além disso: a recuperação de ecos maternos para obter sua subserviência voluntária até mesmo - e, principalmente, inclusive - ao absurdo.

 

Por Alessandro Loiola

Médico, palestrante e escritor

 

 


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