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Sobre medicina, evidências e metades

Publicado em: 2018-03-25 09:16:45

 

 

 

 

 

 

Em 1998, no raiar da internet, fiz minha primeira compra pela Amazon: um livro chamado Evidence Based Medicine, de David Sacket. Na época, tinha uma ideia maluca de trabalhar desenvolvendo conteúdo médico para web e tanto fucei que consegui um trampo na www.bibliomed.com.br - mas isso é uma outra história. Voltemos ao Sacket.

 

O livro em si é bom, mas a introdução é magnífica! Ao tecer sua apresentação da obra e a importância da recém-nascida medicina baseada em evidência, Sacket contava a história de como funcionava o curso de medicina na Harvard Medical School.

 

A cada ano, o reitor da faculdade fazia questão de dar a primeira aula aos calouros. Todos reunidos no clássico auditório, o reitor iniciava sua palestra dizendo: "Vocês estão prestes a entrar no que provavelmente é o melhor curso de medicina que o Ocidente já foi capaz de produzir!" - pronunciava com grande pompa e circunstância. "Nossa escola médica tem 7 prêmios Nobel em seu currículo (hoje em dia 9) e todos os nossos professores têm acesso à vanguarda da tecnologia e do conhecimento científico. Por isso, me sinto na obrigação de lhes dizer duas coisas muito graves. Muito, muito graves de fato. Primeiro" - prosseguia -, "saibam que 50% do que vocês irão aprender será provado ser uma mentira deslavada. Dentro de 10 anos, simplesmente metade do conhecimento transmitido durante seu curso será considerado inválido, incorreto ou absurdo pelo avanço das evidências. Infelizmente, para minha tristeza, nem eu, tampouco seus professores, sabem qual metade."

 

Ainda hoje, me espanta ver como colegas médicos - antigos e recentes - leem e estudam pouco, e refletem menos ainda, e insistem em defender com unhas e dentes as duas "Metades de Harvard" - tanto aquela validada pela tradição quanto aquela desmontada pelo progresso das evidências.

 

A medicina deixou de ser uma arte - virou uma manufatura cega. E nós, médicos, deixamos de ser filósofos da saúde humana e nos tornamos operários a serviço de gestores apaixonados por números. Em toda parte, a maluquice impera. E sua filha mais querida - o vitimismo - vai ganhando mais espaço a cada dia.

 

Entre tantas metades possíveis, ficamos com aquela que não prestava - e sequer percebemos isso ainda.

 

Por Alessandro Loiola

Médico, palestrante e escritor

 

 


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